Porque todos amam Clarice Lispector e ninguém ama ninguém

Quando estou aparentemente quieta, pode crer, estou travando uma conversa imaginária com as coisas que me afligem. Em diálogos esparsos, desconexos, consigo chegar a conclusões que nunca mais terão utilidade e que pouquíssimas vezes saem dos fundos escuros da minha memória (quando conseguem ficar gravados) para ganhar espaço no papel. Fazer o que? Eu gosto da folha branca. Acho-a muito mais compreensível do que uma folha repleta de caracteres e símbolos. Estou farta de símbolos.

Estou farta de muitas coisas, mas o que mais tem “me torrado a paciência” são as sequências de citações desconexas e descontextualizadas que lotam as redes sociais. Clarice Lispector é, provavelmente, uma das mais citadas.

Eu adoro Clarice Lispector. Conheci o seu trabalho numa viagem à São Paulo, em 2007, numa exposição no Museu da Língua Portuguesa. Depois, de volta a Curitiba e às portas do vestibular precisei ler Felicidade Clandestina. Lembro muito da aula de literatura em que discutimos o livro, ministrada pelo genial Carlos Machado. Ele dizia que Clarice fazia muito sucesso entre as mulheres, o que é bem verdade. Afinal, Clarice fala de coisas cotidianas: do roubo de uma flor, da leitura de um livro, do beijo numa estátua ou de um diálogo com um ovo (não pude deixar de lembrar do conto “O ovo e a galinha” ao ler a coluna de Eliane Brum “Um GPS chamado Sophia Loren”). A autora consegue, de forma brilhante, interpretar os eventos cotidianos na tentativa de reconhecer a si mesma e sua frágil existência. Sua escrita, via de regra, transporta o leitor diretamente ao desconforto. Por isso eu amo Clarice Lispector e, talvez, seja por isso que milhares de outras pessoas retiram fragmentos dela (pois cada texto tem parte da sua alma) e os expõe como um produto exemplificador de sua intelectualidade. Talvez seja por isso que muitos passaram a conhecer Clarice Lispector e amá-la também. E talvez seja exatamente por isso que todos também a odeiam.

Porque Clarice sem contexto, não é Clarice. Ela é o todo de seu texto e cortá-lo é mutilá-la, é retirar dela a alma. Ler Clarice Lispector é perder-se na literatura que trata do ser humano e por isso é imortal, atemporal e popular. Ao ler Clarice Lispector, é inevitável sentir um que de compaixão por ela e por si mesmo, é inevitável odiá-la por conhecer-nos tanto sem ao menos ter nos olhado nos olhos. Mas não basta apenas amar e odiar, é preciso refletir sobre as suas reflexões e foi por tentar fazer isso que fui impelida a ler novamente um de seus contos, Perdoando Deus.

Clarice caminhava pela rua experimentando o amor puro e o carinho pelo mundo que lhe proporcionavam uma sensação inigualável de liberdade quando se deparou com um rato morto, um dos seus maiores medos. Indagando-se sobre a relação entre os fatos, percebeu que não estava pronta para amar o mundo, ainda tinha barreiras para cruzar, afinal, não aceitava a existência do rato e nem ele a sua.

O rato e Clarice. Deus e os homens. O preconceito e a liberdade.

Em nenhuma dessas relações, tão faladas, existe amor. O preconceito se baseia na suposição de que certo grupo é superior ao outro. É impossível falar em preconceito sem lembrar de religiões, padrões, morais, etc.

As religiões, em específico, tem sido meu alvo de crítica. Afinal, eu sou adepta ao amor. Sem amor, não há respeito, não há tolerância. Falta-nos amor pelo ser humano. Mas amor de amor mesmo! Amor maternal! Amor de mãe que é incapaz de se calar frente às dificuldades e sofrimentos do filho. Amor de mãe que, mesmo contrariada e ferida, pega o filho nos braços para dar carinho. Amor de mãe que ignora as adversidades pelo bem da criança (que pode ser adulto e ainda vai ser criança).

Quem dera todos os que citam Clarice Lispector, de fato, amassem o ser humano e fizessem pelo outro o que fariam pensando em seus próprios interesses.