Uma noite num bar qualquer

Ela não viu nada de especial nele antes daquilo. Nada que prendesse a sua atenção. O fato dele ter cabelos tão longos quanto os seus e dotados de um tom castanho tão claro capturou seu olhar por gloriosos segundos, antes de se perder na memória.

Ela bebia seu dry Martini. Brincava com a cereja, imersa em pensamentos. As vezes, bebia pequenos goles. A bebida ofuscava seus pensamentos e sentidos. Suas mãos de uma brancura tão pálida, tocavam o cristal frio. As luvas jaziam ao lado da taça. Usava o vestido preto que o outro adorava.

Ele bebia sua cerveja. Encostado na parede, observava o ambiente a procura da mulher que levaria pra cama mais tarde. Não a deixaria dormir em seu apartamento caso usasse um perfume doce demais. Os cheiros muito doces davam enjôo. Bebeu o ultimo gole direto da garrafa e foi até o bar comprar mais uma.

Ela estava sentada com os cotovelos apoiados no balcão. O deslize pelas bordas das etiquetas o atraiu mais que as belas pernas que apareciam suavemente sob a barra do vestido. Não eram pernas como as outras, grotescas, saltando pelos cantos das saias; eram sensuais apenas. Mas o fato dela cometer um descuido a tornou meramente humana e essa humanidade a tornou ainda mais bela e assustadora.

Porque até então ele conhecera mulheres ideais. Que tinham explicações e milagrosas cirurgias reparadoras para todo e qualquer defeito. Eram mulheres que estampavam revistas e sobreviviam delas. Não chegavam a ser fúteis, apenas davam valor a coisas com as quais ele não se importava.

Pediu a cerveja e sentou ao lado dela. Queria conversar, mais que isso, queria absorve-la. Bebeu um gole. De repente, a opinião dela importava. Mas a moça se mantinha calada, imersa em seu delírio tão belo e envolvente. Como os outros não percebiam a profundidade daquele ser? Precisava que ela olhasse pra ele e, ao menos, lhe dissesse uma grosseria. Assim poderia voltar para a roda dos amigos sem se sentir tão diferente. Mas ela não fazia o mínimo esforço para encará-lo. Permanecia quieta, distante como mãos muito próximas que não ousam se tocar.

E sem aviso algum, ela parou de brincar com a cereja e bebeu toca a taça. Ele arregalou os olhos. Encarou-a. ‘Se continuar bebendo assim, vai perder a razão’ disse, incapaz de desviar o olhar daquela estranha criatura. ‘E por acaso existe alguma razão nisso tudo a nossa volta?’ a resposta só o fez fascinar ainda mais. ‘Posso comer a sua cereja, moça?’ e ela sorriu enquanto estendia-lhe a taça. Observou-o com ar curioso, ele colocou a fruta toda na boca e apenas mastigou. ‘Algumas mulheres entenderiam essa sua frase como algo completamente diferente.’ Comentou a moça. ‘Eu sei, já levei muitas mulheres pra cama usando essa’. Ela manteve o sorriso e a frieza. ‘E de mim, suponho que só queira a cereja do martini’. O homem abaixou a cabeça ‘Outros tipos de cereja tem me perturbado’.

Foi então que ele prendeu sua atenção. Sentiu-se, subitamente, amiga daquele desconhecido. Sabia que partilhavam da mesma dor; ele também se sentia perturbado. E passaram a conversar sem que as frases ficassem soltas pelo ar. Toda a poesia proveniente de suas falas era absorvida pelo outro. Cada olhar era compreendido. Cada suspiro passou a ser aceitável.

E a musica acabou. As luzes se acenderam enquanto os garçons varriam o chão.

E os dois se sentiram perturbados novamente. Teriam de partir, afastar-se um do outro. Partilharam sentimentos demais para que a despedida fosse natural. Não eram amigos, tão pouco conhecidos. Não sabiam os nomes um do outro, não trocaram telefones. Apenas partilharam da mesma perturbação com os costumes cotidianos.

E sem dizer mais nada. Ela levantou e caminhou porta a fora. Ele a seguiu, precisava ao menos dizer adeus.

E ela o esperava. Imersa na escuridão da madrugada, olhou-o dentro dos olhos.

Como se tivessem combinado, deram-se as costas. Não suportaram ver a si mesmos no outro. Estavam seguros com o resto do mundo, que não os compreendia.

E caminharam caminhos opostos.

E ele não foi forte como ela, virou-se parar ter certeza de que ela não o observava de longe.

E ela foi mais fraca que ele. Após virar a esquina, sentou na calçada e chorou.

 

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