Faça amor… não faça a barba!

Ele olhou para o espelho. Tinha o rosto coberto por espuma de barbear e segurava a lâmina na mão esquerda. Esquerdo. Sempre. A imagem refletida era incapaz de revelar a real dimensão do vazio em que se encontrava. Perdido no escuro, qual bicho do mato, acuado. Sem parede nua para se encostar. Sem ninguém capaz de ouvi-lo gritar. E apesar disso precisava fazer a barba e retirar do seu rosto algo que era seu, geneticamente programado e calculado para ser seu, mas que não era socialmente aceitável. Como algo que era dele poderia ser retirado? A barba fazia parte dele. Cada fio continha um pouco da sua matéria viva. Quanta vida já não tinha perdido em tantos anos de barba feita? Mas a barba precisava ser feita, pois mesmo sendo dele, não o pertencia. A barba era da sociedade que via nos barbudos homens descuidados, sujos e incoerentes.

Mas ele também era um pouco sujo, descuidado e incoerente. Ele, que fugira dos banhos da moralidade tantas vezes, tropeçava nos próprios pés quando tinha que defender a si mesmo. Inseguro diante de sua própria barba de homem, tinha em si um ponto final seguido do vazio e fugia todas as vezes que alguém ousava retira-lo de sua zona confortável, o óbvio.

O explicito lhe causava enjôo. As notícias dos jornais eram incapazes de recolher-se a sua insignificância. E sua barba assistia tudo e ria-se dele com sua presença miserável. Cortá-la era cortar seu senso crítico que o fazia lembrar de sua morte inevitável. Quando morresse, a barba do mundo iria cobri-lo e uma vez coberto de pó, dormiria para sempre. Sem sonhos. Sem mágoas. Sem danos.

Num golpe único cortou a barba e junto com ela, sua capacidade de reflexão. Adequou-se ao parâmetros do mundo social. O sangue cobriu o espelho e os pelos cobriram o chão antes de se misturarem num rio de morte e vida.

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Algodão doce, Rumi e um cabo USB ou como a poesia de Rumi desperta o coração do mundo.

Há dias que o céu está coberto de nuvens. Frágeis pedaços de algodão-doce que flutuam no céu azul antes de deixar cair a chuva sobre a terra seca desse inverno. Várias cidades de Santa Catarina estão sofrendo com essa seca do inverno. O clima está pesado, como pede o inverno. Em dias assim, quando o sol parece não querer nascer, os casacos avolumam-se sobre os corpos, o ar-condicionado faz circular o ar poluído e a sopa esfria rápido demais. Em vão, vinha procurando algo para me aquecer.

Queria algo diferente. Uma xícara de café, um cobertor e um vinho ao pé da lareira, uma cama quentinha, um abraço e um beijo. Não, nada disso parecia o suficiente. Precisava de algo que me perturbasse. Sair da zona de conforto é pode aquecer mais do que qualquer outra coisa, pois provoca sentimentos variados e acende uma chama terrível que nos impulsiona a buscar respostas e soluções. Todos os domingos, Law & Order SUV consegue fazer isso (e tirar o sono), mas ainda assim alguma coisa falta.

Falta algo que conecte. Algo que demonstre como o mundo todo está ligado. O eixo, sob o qual todo o universo gira. Seria o bóson de Higgs?

Falta alguma poesia que fale diretamente com a alma. Alguma frase não explorada de Fernando Pessoa, Alphonsus Guimaraens, Vinícios, Clarice ou Drummond. Alguém que escreva e acredite naquilo que escreve. Alguém que seja humano o suficiente para transcender.

Domingo, esbarrei com a poesia. Um livro estava parado no meu criado mudo. Inerte. Silencioso. Preso à sua capa escura. Era um livro sobre Rumi, o sufi. Há tempos que Rumi me fascina, bem como a espiritualidade de sua obra, mas não vamos entrar em crenças aqui. Mavlana Jalal ad-Din Muhammad Rumi, cujos versos mantiveram-se vivos ao longo do tempo, tirou-me do espaço. Num soco suave, puxou-me para a terra novamente e falou, não comigo, mas com a alma do mundo.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.