Diálogos “gimelhos”

Uma das coisas que mais ouvi dos meus pais na infância é que as coisas precisam ter um motivo. Porque escolher este e não aquele. Mais do que ensinar os efeitos de causa e consequência, eles me ensinavam a defender minhas ideias sem rodeios. Isso foi muito proveitoso na infância e agora, ajuda um bocado no trabalho e na vida.

Afinal, o “ser” é por alguma coisa. Mas existem momentos em que aceitamos as explicações vazias que as pessoas nos dão. Por comodismo, talvez, dizer que “não gosta” é uma fuga certeira para algumas situações comprometedoras. Um dia, no ensino médio, o professor de literatura questionou o consumo de carne dos alunos. Poucas pessoas (cerca de 0,1%), na maioria mulheres, afirmaram não comer carne. Quando o professor perguntou os motivos, a resposta da maioria foi “porque eu não gosto” e apenas uma das alunas, naturalmente tímida e visivelmente envergonhada, limitou-se a dizer “por vários motivos”. O restante da classe jamais ficou sabendo que ela gostaria de ter respondido que era a sua maneira de lutar contra a ordem capitalista de exploração dos animais.

Hoje, me peguei pensando no que aconteceria caso ela tivesse respondido. Enquanto realizava os movimentos mecânicos de colocar o açúcar no açucareiro, derramar o café na xícara e mexer antes de levar aos lábios, voltei àquela sala de aula para questionar o porque nos conformamos com respostas simples, não dando mais chances para discussões mais profundas, capazes de fazer refletir e (quem sabe) alterar nossa forma de ver o mundo.

Minha filha aprendeu a falar antes de completar 1 ano. Ao entrar na escola, com quase 2 anos, seu vocabulário já era extenso e só aumenta a cada dia. Apesar das dificuldades em pronunciar algumas palavras (como “vermelho”, que ela diz “gimelho” ou ainda “zimelho”), quando as respostas às minhas perguntas são “Porque sim” ou “porque eu quero”, incentivo-a a buscar respostas alternativas que apontem a raiz do seu querer ou não querer.

Penso que se levássemos essa cultura para todas as esferas da vida, teríamos a possibilidade de ter diálogos mais abertos em diversos ramos. Porque você não gosta dos homossexuais? De onde vem o seu desconforto ao ver um casal homossexual (em geral, masculino) se beijando na televisão? Não é intromissão. É não deixar-se cair no conformismo. Dialogar abertamente é exercer a tolerância.

O diálogo não mata; o que mata é a falta dele.

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