Desenterro

Quem diria que o Contestado me pegaria? Logo eu que fugi dele como o diabo corre da cruz que o persegue. Logo eu que, quando pude voar, voei diretamente para o seio de quem arrasou com essa terra. Sim. Essa terra, porque até poucos dias ela ainda não era minha e nem me passava pela mente tomá-la para mim. Uma apropriação absurda. Não adiantava! Por mais que eu quisesse, o Contestado não dialogava comigo. Era uma questão de gosto. E eu não gostava.

Mas então, passo dado para dentro do mato e uma mão me puxou. Não uma mão como a dos filmes de mortos-vivos que se esgueira fria e úmida para fora do caixão colorida de azul ou branco se forem apenas os ossos. A mão era viva e ainda em sangue. E se segurou em meus pés como uma criança com medo. Ela pedia socorro. Pedia socorro sem saber que eu gritava pela salvação dentro de mim. Mesmo sabendo que o tempo de fugir já se fora.

Vacilante, tateei pela terra tentando ganhar tempo e retirar de lá o meu corpo sem que a mão me seguisse. Um pensamento infantil, porque a mão sempre me acompanharia. Enquanto eu não a desenterrasse, ela não sairia de mim e eu não me libertaria dela. Eu e a mão precisávamos uma da outra. Ambas precisavam nascer. E eu não podia me furtar de mais um parto. Não daquele parto que prometia ser o meu. A minha chance de me ver nascer novamente, pintada com essa terra e em luta. Outra luta contra o esquecimento.

Com as mãos trêmulas, cavei a terra que se abria sem esforço. Cavei enquanto a terra se enfiava unhas a dentro e me manchava. Com a mancha de barro e sangue e com a mão que já voltava para sua cova rasa que eu não era capaz de encontrar, a compreensão veio. Cavei o quanto pude, até me exaurirem as forças. Mas a mão já desaparecera. Sem esperanças, continuei fuçando naquela terra com a fúria de uma criança que não encontra seu brinquedo em meio ao cesto. Foi quando consegui tocá-la.

Estava fria. Não era mais a mão que me segurou. E as lágrimas vieram. Continuei abrindo a terra com minhas mãos sem perceber que quanto mais procurava, mais me enterrava. Viva. Como eles também foram. Vivos e enterrados. Enterrados vivos. Enterrados mortos. Mortos em vida.

E a morte voltou a tomar minhas linhas. As linhas que já não eram mais minhas e que algum dia seriam cobertas por palavras traidoras que jamais descreveriam a completude daquele desenterro. Um funeral avesso que fez nascer ao invés de morrer, que me fez olhar ao meu redor e me perceber como parte integrante dessa paisagem.

Como continuar a viver depois desse encontro?

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