Palavra e arte no Contestado

Há tempos que não escrevia. Tempo demais, por assim dizer. Fato é que no último mês de maio pude me redescobrir. Reencontrar e reviver para buscar uma memória que já não me pertencia. Foram pinturas em aquarela que me puxaram pra terra. Pra dentro da terra. Enterrada até o pescoço, não havia outra opção senão terminar de afundar. Afinal, desenterrar meu corpo e mente do Contestado seria um crime contra minha própria identidade, história e memória.

“Em meio aos pincéis, está uma mulher que precisa gritar uma identidade silenciada por um vazio histórico e geográfico”, foi o que eu disse pra ela. Não sabia que ela também me tiraria do silêncio. Fiquem com um pouco dessas descobertas, a iniciar pelo primeiro conto que escrevi sobre uma das suas aquarelas: a Cabocla.

A cabocla da tela se esvai em sangue de tinta. Pintada. Imóvel. Eternizada em uma aquarela com a mesma dor de se ver morrer. De ver seu sangue escorrer, fugindo de suas veias para encharcar a terra. Essa terra de poeira e sol. Poeira que se acumulou na picada depois da invasão do Estado. Um Estado de tetas gordas que amamentam quem tem a boca cheia. E que esqueceu aberta a torneira do sangue. Estado hemorrágico cujo sangue pinga. Pinga e arde. Pinga e sobra. Pinga e cai. Pinga e morre.

E morta, a cabocla vive na pintura. E respira. Encanta. Existe e se revela perante os olhos daqueles que já a haviam riscado do mapa dessa terra. Ela vive nessas pedras, nas árvores que crescem, nas cruzes que se escondem na paisagem, nos ossos enfiados terra a dentro. Devolvidos ao útero da terra numa cesariana avessa e débil. Sufocados no leito daquela mãe que os matou. Vive, também em mim.

E porque vive, a cabocla descansa no paraíso. Depois de viver no inferno, ela morreu matada por seu par de berço, terra e cor. Entrou no paraíso levantada do chão, sem cova ou mortalha. Não tivera tempo de preparar seu enterro. Nem o dos pais. Nem o dos filhos. Nem o de toda aquela comunidade que habitava aquelas paragens tão distantes do Estado que a assassinou.

Descansa então, cabocla. Encosta tua cabeça na relva e dorme o sono que é teu. Tira do peito o medo e conta tua história. Fala, palavra por palavra, o que te aconteceu. Na palavra estendida pelo traço do pincel, você pode continuar respirando sem a quentura da bala que te arrebentou o peito. Sem o fervilhar da fome que te fez cair.

Exista, cabocla, e resista como os teus pares. Deixe viva a tua história. Conte-a por nossas bocas e feições e braços e pele e mãos. Entre em nossos corpos, partilhe do nosso leito. Não nos prive da sua companhia. E nem da sua memória. Conte-nos quem você é. Teu sangue alimentou a terra que me fez. Tua vida me fez ser quem sou. Sou? Você e eu, uma pessoa. Filhas dessa terra e fruto dessa lei. Foras da lei por existir e habitar o chão onde se fincaram nossas raízes. Nós duas. Tortas que somos. Mortas que fomos.

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