Santa Maria II

Ah, Santa Maria, quantos dormem sob seu solo? Quantos se deixaram cair quando você começou a arder? E quantos se levantaram e continuaram fugindo em busca da liberdade de existir? Não existem ainda, os mortos de Santa Maria. Enterrados e mudos. Montes de ossos que, não bastasse o mal que causaram em vida, continuam impedindo o progresso nesse presente tão atípico. Desaparecem os ossos de Santa Maria, bem como os vestígios dos cavalos em disparada e as pedras das carneiras. Despenca a cruz de Santa Maria.

Falta-me o ar na boca do Vale da Morte. Ar e palavras. Emudeço na grama de Santa Maria ao perceber que nenhum grito, por mais bravo ou apavorado que seja, poderia sobreviver àquela distância. Longe, dorme Santa Maria com seu cobertor de grama fofa. Adormecida pode estar, mas morta nunca. Vive e pulsa Santa Maria atraindo os caminhantes para seu interior por um caminho em que cada passo implica numa reflexão.

Vivos, subimos.Vivem os que ensinaram às crianças o que aconteceu em sua própria terra, justificando o injustificável. Vivem os que escrevem, leem, pintam e falam sobre as vidas e mortes que permearam o Vale no início do século. Vivem os que refletem e não se contentam com uma repetição que não faz mais do que renegar uma memória coletiva – um espaço aos que não se foram e não são culpados. Vive meu Contestado no coração de todos.

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