Danse, mon Esmeralda

Imensa. Agiganta-se enquanto me puxa pela mão a caminho do infinito. São coloridos os momentos que circulam em minha memória, girando desnorteados. Esvai-se o medo de que me derrubem. Barreira em seu percurso rumo à felicidade. São risos passados que brincam com meus lábios e abraços cheios de carinho que me esquentam na tarde que é fria. Também eram frias aquelas tardes que se pintavam escurecendo o céu para anunciar a lua. Também era fria aquela noite ao redor da fogueira. Quantas vezes me peguei desejando que a hora não passasse? Que o copo continuasse sempre meio cheio?

Passam alegrias e tristezas enquanto continuo. Também eu me tornei uma caminhante dessa terra. Sempre em movimento para não deixar que as pegadas se apaguem. Não sabia que quando mais andava para fora daquele que considerava ser um mundo tão meu, também me descobriria. E hoje todo o mundo gira em êxtase a cada palavra que pinta o papel.  Alinham-se os planetas para admirar a pureza desse momento tão frágil que é se entregar às vozes que precisam ser ouvidas e às nuances que precisam ser percebidas e aos passos que precisam ser dados. Andaria por quilômetros e ainda não seria sua por completo. Giraria entre memórias verdes e amarelas. Sorriria com a lembrança do rosto ligeiramente abaixado que lhe encarava. Dançaria como dançaram tantas outras mulheres antes dela. Mulheres tão suas que tinham livre passagem para entrar e sair de seu corpo e pensamentos. Quantas já fora? Quantas ainda seria? Quantas lhe estariam reservadas por trás das cortinas do entendimento?

Já não queria entender. Tinha sentimentos demais se acumulando em seu coração para conseguir pensar. Bastava-lhe que as mãos dançassem sobre o teclado. Bastava-lhe viver naquela terra e senti-la, ainda quente, com o sangue que lhe escorre.

São pequenos crimes que cometemos todos os dias. Mas amanhece. É o céu que se pinta de azul, já sem geada que permita escrever no para-brisas do carro. Escuta! Aí vem um novo dia e uma nova canção. Segure minha mão novamente, minha doce amiga. Vamos dançar!

Espelhos

A saída do invisível. Eram duas máscaras que se encaravam. Vacilantes coberturas de maquiagem tomavam café e conversavam com formalidade. Por quanto tempo suportariam aquelas almas atormentadas? Não muito, diriam mais tarde ao perceber que as armaduras caíam a cada passo que davam. Uma para dentro da outra e então eram duas. Duas mulheres em busca de uma voz que as ouvisse. Duas vozes novas para duas vidas que precisavam de um sopro de humanidade. Talvez tenham percebido o germinar da admiração inquietar seus corações. Talvez tenham tentado se apropriar daqueles momentos com tanta garra que já não tinham mais medo de sair feridas daquele encontro. Embora feridas tenham ficado. Embora sempre hajam novas feridas a serem curadas.

Não era domingo. Mas os domingos se sucedem às despedidas que sempre são dolorosas. São dias cotidianos que se arrastam fazendo pesar cabeça, corpo e membros. Rangem os joelhos, doem os ombros, endurece o pescoço que precisa sustentar uma cabeça onde vagam pensamentos tão livres. Livres de todas as amarras gramaticais, voam palavras a esmo e nocauteiam aquela que escreve. Enquanto escreve, cansa como se corresse uma maratona. Ou 100 metros, que pra ela eram a mesma coisa.

O que importam as distâncias e os mapas para quem tem, dentro de si, toda leveza do mundo? Leve demais, também pesava. Tropeçava entre os sons e o silêncio, as presenças e os vazios, as cores e os sabores. Despida de sua máscara, caíra nua nas garras do mundo. E descobrira gostar do sabor do seu próprio sangue oferecido em sacrifício para o deus das coisas. Descobrira que desejava engordar das coisas para se oferecer com maior peso e tamanho. Desejava o punhal sagrado lhe arrancando o coração ainda batendo. Era americana, afinal. Talvez em alguma vida tivesse assistido o ritual em êxtase ou pânico. Talvez apenas acreditasse que a dor seria menor, já que terminaria. Terminaria? Poderia perguntar-lhe a outra, igualmente desmascarada e correta mais uma vez. Ambas sabiam que não, mas quem sabe preferissem ignorar e tomar outra taça de vinho enquanto o domingo não desponta.

Se aproxima o domingo. Com ele, as máscaras novamente. Ajuntadas do chão, inquebráveis. Vestem enquanto sobrevivem as duas mulheres – enquanto lutam cada qual com os seus demônios. Já não são as mesmas daquela tarde que se transformou em noite que durou uma vida inteira. Mão para dentro do espelho e estavam livres. Eu estava.

O caminhante do Contestado

Passa o caminhante do Contestado.

Passa e move.

Passa e fica.

Passa e modifica.

Línguas de feras dançam em sua boca sem perder uma única oportunidade de mostrar os dentes. Mas não morde. Ladra. Falam com classe as palavras que lhe saltam pelos lábios, medidas com justeza para causar diversas sensações. Apavora-me ouvi-lo falar. Arrepia-me como antes me arrepiaram suas palavras escritas. Surpreende-me perceber minha própria boca aberta perante seus discursos com o débil desejo de que uma daquelas letras me escolha como sua morada e permaneça colada na língua, saltando sempre que possível. Não me escolheram. Silencia minha voz enquanto escrevo, agora encantada com o eco da sua voz que ainda ecoa em mim, ainda arrancando as mesmas águas que me cobriram os olhos às escondidas.

Segue o caminhante do Contestado.

Segue movendo.

É um homem em guerra que segue estrada acima com a bandeira do Contestado amarrada nas costas. Cajado na mão para suportar o fardo de carregar um corpo consigo. Elevo-me ao imaginar seu corpo livre enquanto a mente voa e as palavras falam e dizem mais que as histórias exaustivamente repetidas. Em vão, tento me prender em uma das cordas que o seguram ao que é terreno. Cordas de palavras ditas, escritas e sentidas que evanescem em sua própria beleza e realismo. Real demais é esse homem. É essa Guerra. É esse chão de terra batida que o progresso abandonou. Reais demais são as evidências do passado e do presente e do futuro que não tarda e mesmo assim não desponta.

Continua o caminhante do Contestado.

Continua e fica.

Emudece. Também a ele se reservam os silêncios. Silencia dolorosamente, pasmo pelas mudanças da paisagem, trazidas pelo mesmo e sempre o mesmo capital. O cifrão que assalta com frieza maior que o cano da arma encostado na boca. O dinheiro que sangra gentes e animais e árvores e terras. Sanguíneo é o capital inserido no Contestado. De sangue é o contraste com a brancura da bandeira ainda amarrada ao corpo daquele que se cala. Hesitam ele e os demais – nós, enquanto aguardamos a próxima palavra. E ela vem. E quando chega, perfura com o som de mais uma bala cortando o vento daquelas paragens. Uma bala humana. Uma bala de carne, ossos e sangue que perfura e se aloja no coração.

Essa era a bala que o caminhante do Contestado guardava. Alojada no meu coração, cubro-a com a bandeira branca. Cruz verde sobre bala vermelha, passa o caminhante do Contestado. Passa e modifica. Fica e deixa saudades.

Matemática das almas sobradas

Uma chuva de palavras lhe invadia os ouvidos. Custos, dinheiro, equivalência de capitais. Ignorava aquele que falava torrencialmente que ela nem ao menos estava ali. Nem mesmo seu corpo era perceptível naquele espaço. Bunda na cadeira e ela voava entre o tempo e o espaço enquanto lia o livro grosso que comprara aquela tarde. Simones e Jeans lhe invadiam antes de se deixar terminar de nocautear pelas palavras feridas da outra, daquela que tanto admirava em suas letras. Letras que, como as dela, davam formas e cores e imagens. Letras que fizeram tudo isso por primeiro e a mostraram que era possível. A chama estava acesa.

Mas nadava.

Sob a água da rotina que a afogava, sentia seu peito arder que estava pelo ar que já faltava enquanto fugia dos tentáculos do cotidiano. Uma horda de polvos cotidianos se debatia tentando alcançá-la. Não sabiam que jamais a alcançariam. Estava presa, segura dentro da bolha das palavras não ditas. Entre parêntesis estava salva.

Números manchavam o papel onde antes figuraram letras. Qual era o valor daquele dinheiro imaginário, ela não sabia. A que tipo de capitalização imaginária aquele capital que nunca foi investido estava submetido, também era incapaz de dizer. Suas mãos saberiam, já que resolveram os exercícios riscando lápis sobre a folha. Seu cérebro saberia, já que tentou decifrar o problema encontrando um método mais fácil de resolvê-lo digitando na calculadora.

Mas corria.

Despida das botas em que se equilibrava em saltos finos com o ânimo de uma alpinista, podia sentir a grama fria sob seus pés. Corria entre a mata recheada com tons de terra. Inebriava-se com o cheiro doce do musgo acumulado nos troncos das árvores em que se esfolava ao correr. Delirava com o vento que lhe cortava o rosto. Braços e pernas nus em seu vestido branco. Procurava por Ele, que lhe aparecera no sonho. Ele que já havia assumido tantas formas e vinha novamente para lembra-la de reconhecer sua essência. A essência que lhe fora roubada pelas ventosas carinhosas do cotidiano que a consumira por anos em água salgada. A mesma essência que lhe salvara com as palavras ditas e a saída dos parêntesis.

Não sabia dizer se o investimento era viável. Nem ao menos definia fluxo de caixa, separada que estava de seu cérebro e das transações financeiras.

Mas voava.

Apenas seus olhos corriam livres pelo infinito que se abria a sua frente. Olhos de ressaca pelas noites mal dormidas, pela alimentação inadequada, pelas olheiras que lhe manchavam a pele. Olhos que voavam guiando seus pensamentos e seu corpo já inútil por entre as araucárias daquela terra que deveria cobri-la em alguns anos. Passassem os anos, o que sobraria? Uma alma livre vagando perdida entre um mar de pinus alienígena à paisagem, envenenando o solo e a mata nativa em nome do capital que ela não podia classificar, posto que não lhe pertencia. Sobrariam olhos de cigana, oblíqua e dissimulada à espreita, escondidos atrás de um tronco derrubado da imbuia milenar que também tombou perante o avanço daquele trem que já não passa. Sobraria um monte de ossos enrodilhados em posição fetal dentro do útero da Mãe Terra. Sobraria uma palavra impressa. Sobraria a vida, mesmo que morta.

Agenda

Uma agenda cheia de compromissos a esperava em cima da mesa, no exato lugar em frente ao computador, ao alcance de suas mãos. Tudo para mostrá-la que aquele pedaço de papel era o que comandava sua vida. Seus horários se definiam de acordo com o que a agenda determinava para o dia. Chegava a pensar que aquele caderno tinha vida própria e marcava reuniões, entrevistas e tarefas por conta própria, cabendo a ela o prazer de apenas cumprir o que lhe fora ordenado por algo ou alguém. Um pensamento libertador, afinal. Eximia-lhe toda a culpa. Tão grande eram aquelas listas que já não lhe sobrava tempo de respirar. Estava presa no tráfego das atividades cotidianas. Qualquer que fosse o desvio, teria sua passagem obstruída por um novo trabalho a fazer, mais uma carta para escrever, mais um morto para chorar. Até quando seria capaz de levar aquela vida em que o que menos fazia era viver? Até quando sustentaria a farsa de que tudo aquilo realmente lhe importava quando, na verdade, a única coisa que desejava era a poesia?

Olhou a sua volta e tudo que viu foram cacos. Projetos pela metade, roupas amassadas, chão com poeira. No espelho, raízes por pintar, unhas sem lixar e olheiras. Não parecia tão doente. O espelho não refletia as vozes que se debatiam dentro de seu corpo. Tal como ele, ninguém com quem convivia parecia perceber que quanto mais tentava abafar aquelas vozes, com mais força a golpeavam. Não poderiam saber. Eles não sentiam a mesma dor que ela. Não ouviram o pânico existente naquelas falas e nem viram seus olhos vidrados de pavor. Havia mortos dentro dela. Mortos e feridos, dos quais ninguém se salvou. Mortos vivos que gritavam suas dores cada vez mais alto para que ela os ouvisse. Mas ela não queria ouvir. Eles não poderiam falar por sua boca. Tinha que ser por suas mãos, por onde tudo começou.

Dedos furiosos massacravam o teclado. Era um inocente. Mais um inocente destruído para dar voz ao clamor de uma multidão. A multidão reunida dentro dela. Homens, mulheres e crianças que a devoravam num banquete canibal em que o prato principal era feito de palavras. Sua matéria. Sua forma e substância. Se encontrava sentido na palavra, era delas que se alimentariam. E por isso escrevia. Digitava e enquanto digitava chorava. Era inútil. Suas lágrimas doíam menos que o terror que eles a imprimiam, um sentimento impossível de descrever, pois as palavras já haviam sido devoradas. Eles precisavam do seu texto afetado, pouco planejado e febril. Enquanto escrevia, eram eles que conduziam suas mãos letra após letra, acento após acento. Logo eles, que nem ler sabiam. Ela sabia. Lera sua vida inteira. Escrevera sua vida inteira. Já dera à luz e agora vivia para dar voz. Dessa vez, porém, era diferente. Aqueles mortos a seduziam e ela desejava que usassem das suas mãos, da sua pele, do seu corpo inteiro. Escrevessem nela! Ignorassem a agenda, os compromissos, a mala por fazer, o chão para limpar e a derrubassem sobre um leito de pedra para marcá-la com suas palavras. Escrevessem seus nomes, suas vidas, se unissem a ela ao invés de devorá-la viva com sede de sangue. Servissem seu corpo cru em um banquete canibalesco e usassem suas mãos para continuar escrevendo. Sabia que as vozes não se calariam enquanto não a puxassem para sua cova. Um túmulo coletivo para os corpos encontrados na beira da estrada. Indigentes, dessa vez com história. E poesia.

Escurece no Contestado

Escurece no Contestado enquanto o mundo se ilumina. Uma porção de terra esquecida por deus e consumida pelo diabo a cada dormente fincado no chão. São bocas frenéticas que invadem a floresta para retirar-lhe a cobertura cuspida no estrangeiro a preço de ouro. São olhos que piscam incapazes de acreditar que tudo que veem é real. Também são rostos e mãos que se tocam em busca de conforto. Também é um fio de esperança que se eleva aos céus e para os seus. Iluminado está o mundo.

Pouco a pouco, ilumina-se também o Contestado.

A mulher das aquarelas

Ela tem o mundo nas mãos. O mundo e um coração tão grande que nele cabem todos os sonhos do mundo. Incompreensível é o seu malabarismo. O equilíbrio que mantém para não enlouquecer com a realidade que a cerca, com o passado que lhe corrói e com o cotidiano que a motiva. Encanta, a mulher das aquarelas. A mulher que ao abrir a porta de sua casa também se abre. Se mostra. Revela. Expande. E depois disso, deixa de fechar.

A porta se fecha, mas ela continua lá, simbolicamente aberta, simbolicamente curada, simbolicamente em silencio. Mas ela nunca silencia. Não porque fala, mas porque cala e mesmo muda, não se fecha perante o mundo. Deixa entrar. Deixa vir. Deixa ir, mesmo sabendo que é impossível partir sem mudar. Mudam ela e eu. Mudam as cores na pintura e os pontos nas linhas. Mudam as entrelinhas. Mudam os brancos. Muda o mundo e permanecem as angústias, as dúvidas de um hiato tão curto que é viver. Continua o equilíbrio sobre a corda que cruza o abismo. Voltam as preocupações quando a cidade se aproxima. Ela também não está livre dos cafés ruins.

Voam brisa e fogo de suas palavras. Inflamada, explica e sofre. Talvez se lembre de quando percorria esses pinhais a caminho de casa. Sua casa no coração da floresta, no ponto de encontro entre o terrestre e o divino. Quantos corações batem em uníssono entre essas árvores tão grandes? Quantos corações deixaram de bater antes mesmo de morrer, tomados que estavam pelo desespero? Mas o coração dela bate. Bate forte e machuca para mantê-la viva. Talvez a sua missão nessa passagem pelo mundo seja gritar a expressão do escândalo das incoerências do discurso, das inconstâncias do cotidiano, das falhas da percepção.

Viva demais, se entrega. Não se contentaria em caminhar sobre a corda bamba que cruza o abismo. Ela quer o vento gelado do inverno cortando sua pele durante a queda. Se for preciso cair, cai para compreender. Cai e continua lúcida durante e depois da queda, numa lucidez que fascina pela simplicidade com que trata as coisas do mundo. Encanta a mulher das aquarelas. Mudam ela e eu. Mudam as batalhas. Mudam os palcos. Muda a admiração, que aumenta. Expande. Cresce. Continua. Eterniza em palavra e cor.