Virgem

 

Estava tudo bem. O dia clareava por entre as nuvens cinzentas. As horas passavam tiquetaqueando no relógio. O café esfriava na xícara. E então, ela foi traída. A traição veio como uma punhalada invisível direto em seu peito. Bem em cima daquele coração que doía constantemente há meses, sem que reclamasse. Gostava daquela dor, daquela sensação de ter todas as chances de viver ou morrer possíveis de serem alcançadas apenas com um pulsar. Gostava de saber que seu coração poderia parar no minuto seguinte. Gostava da ideia de sentir o órgão arrebentar dentro do peito, batendo em suas costelas e rasgando sua carne sem gordura. Carne magra. Carne de primeira, sem gosto, que ia parar sobre os pratos finos cheia de temperos refinados para fingir que era chique. Quantas vezes comeu a si mesma naqueles pratos? Em frente ao espelho? Sobre aquelas mesas enquanto desejava que ele a penetrasse duramente no meio do restaurante, no seu escritório, na sala de aula? Quantas vezes se tocou imaginando seu membro? Quantas lágrimas traidoras lhe escaparam numa rebelião programada?

Estava pronta para ser devorada novamente. Tinha seu discurso decorado na ponta da língua, fruto de horas de treino diante do espelho. Tinha suas roupas meticulosamente escolhidas. Mas não tinha previsto uma resposta. Toda organização programada para o dia se esvaiu em um único som: um e-mail chegando. Em um segundo estava em pânico com seu desejo escancarado na tela. Uma resposta simples, formal, quase mecânica e seu coração doía mais uma vez. Sabia que não poderia mais trabalhar naquele dia. Sabia que jamais aceitaria a possibilidade dele arrebatá-la por mérito próprio. Não. Tinha que partir dela nem que fosse começar com a dureza de um chute bem no meio do saco. Ele é quem tinha que se dobrar a ela para que não ferisse seu orgulho ressentido. Para que ela própria não mergulhasse na tristeza de seus projetos não concluídos, das unhas não feitas, do cabelo não pintado, da tatuagem em branco, da lingerie manchada de sangue. Sangue de parto. Sangue do parto da filha da filha. Dela. E que também foi seu. De quando descobriu que parir é ainda mais doloroso para quem renasce, para quem reconstrói a si e ao seu mundo em uma nova perspectiva. Só quem tem o bucho aberto e uma criança arrancada de dentro de si conhece essa dor. A dor de se ver morrer na mesa de cirurgia enquanto a filha vem para crescer. Crescer sem ela, que ficou. Que já era e tenta (em vão) gestar a si mesma para parir novamente.

Ele não poderia respondê-la. Não daquela forma doce. Não com aquele olhar que ela conhecia profundamente de tanto encará-lo. E agora, segura na distância que separa dois computadores ligados pela internet, não podia olhar para ele. Agradecia por não ter aqueles olhos vagando pela sua geografia. Um corpo que era planície. Um corpo que jamais se faria oceano por nunca conseguiria se libertar da terra que o compôs. Feita de barro, desde o início, tinha uma serpente a devorando constantemente para lembrá-la de que era terrena. Isso explicava seu medo de água. Sua incapacidade de permanecer submersa, de manter os pés na água. No seu pavor do que não é terreno, nem ao menos pôde permanecer no próprio útero. No corpo da mãe da mãe da filha. Aos poucos compreendeu que jamais poderia nascer novamente. Ao menos não enquanto não pudesse encarar aqueles olhos por trás das lentes com a mesma clareza que olhava para sua própria face. Enquanto não se visse refletida, não existiria. Voltaria à terra.  Ao barro. Ao pó.

Será que ele sentiria nojo se seu coração explodisse diretamente na sua cara? Será que gozaria enquanto ela caía morta ao seu lado? Já não tinha certeza de nada. A resposta enviada inesperadamente a retirava do falso controle que fingia ter. E seu coração doía. E seu estômago borboleteava. E sua boca se enchia da saliva viscosa que antecede o vômito. (E se vomitasse enquanto ele a penetrava?) Restava a pergunta não respondida e o discurso que precisava fazer para ele mais tarde. Precisava que ele assinasse um papel. Desejava que ele usasse a caneta para assinar seu corpo. Marcá-la com uma marca que nunca deixou ninguém fazer em sua pele imaculadamente branca. Precisava que ele a jogasse na parede e a violasse. Precisava de um crime. Uma xícara quebrada. Um leite derramado. Uma gota de prazer que escorreu pelo chão.

Talvez a conversa que teriam a noite pudesse surpreendê-lo. Talvez tivesse coragem de pedir que ele a matasse. Me mate. Me mate. Me mate. Me coma e depois me mate. Jogue meu corpo pela janela e aproveite seus dias de prisão sendo a puta da cadeia. O papel que era dela. Se ele soubesse quanta dor trazia voltar a escrever. Gravar no papel palavra por palavra que revelam nada mais do que a ausência de sua completude, a espera consciente pelo último pulsar em meio a um grito de dor. O grito. Ah, sim, o grito. Aquele grito que ela nunca deu, pois nada podia escandalizá-la. Aquele grito que a consome por dentro. Talvez seu coração grite antes de morrer. Talvez ele grite de tesão quando ela gozar. Talvez ela se molhe toda e não seja capaz de leva-lo para cama. E sozinha, rolando nos lençóis, possa contemplar a imensidão da sua incompetência. Se nem ao menos podia encará-lo sem ficar vermelha como o tomate que tanto detestava, como teria coragem de chupá-lo? Uma incompetência superada apenas pelo medo de ter sua certeza ferida por um não jogado na sua cara. Quase podia sentir os tomates podres caindo no palco ao seu redor. E nem o palco lhe servia. A luz da cochia a cegava. Será que ele estava na primeira fila?

Não, não estava. Não estaria lá para ela. Não a veria morrer com um coração que explodiu de tanta amargura. Talvez se apavorasse com a cobra que sairia de dentro dela ao descobri-la muito mais terrena do que qualquer um dos dois gostaria de admitir. E talvez, apenas talvez, assinasse seu papel e a desse mais uma gota de veneno verde como a esperança para que continuasse correndo atrás dele. Cega pela luz do palco, tatearia no escuro na tentativa de alcançá-lo. Beba, minha querida. Beba mais uma palavra, mais um toque para arrepiar seu corpo e fazer seu olho do cu piscar de tesão. Beba só mais um pouquinho e então morra em paz. Traída. Jamais tocada. Virgem.

 

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