Chuva

Chovia. Chovia e ela sentia calor, mesmo sentada e com movimentação limitada. Era impossível ignorar os projetos que ardiam dentro de si, consumindo-se enquanto ela tentava (em vão) não queimar enquanto o tempo passava e se esgotava. O fim se aproximava, ela sabia com aquela certeza débil que lhe surgia aos espasmos. Mas queimava. Chorava em silêncio na tentativa de apagar o fogo. Chorava escondendo as lágrimas do cliente que entrava pela porta. Sorriso falso no rosto e podia continuar. Só não podia seguir com o olhar da diretora. A mulher que a olhara da cabeça aos pés e que, além de olhar, a julgara em apenas um segundo ao notar seu cabelo sem pentear. Não poderia saber que ela passara a noite em claro, despertando segundo a segundo por seus sonhos insanos em que quadros lhe saltavam, escadas lhe fugiam e a água a inundava. Não poderia saber que sua mente era um todo confuso de planos, ideias e desejos ignorados em função da moral e dos bons costumes.

Jamais poderia chocar alguém, fora esse o conselho que recebera. Guarde suas ideias para si mesma, esconda seus desejos e vergonhas para não escandalizar aqueles que a cercam. Ele não sabia o quanto ela desejava um escândalo ainda mais gritante que seus cabelos vermelhos. A resposta que ela queria estava dada, mesmo que a pergunta jamais tivesse sido feita. Teria ele se reconhecido naquelas palavras? Provavelmente. Só não deveria ter imaginado o quanto a sua resposta o fazia parecer ridículo, já que ela não se importava com a opinião que ele construiria dela. Poderia se despir em sua frente e quem estaria nu seria ele, vestido com suas próprias vergonhas, encoberto por seus conselhos de homem de bem.

Seu coração ainda doía, mas sorria. Papel sem assinatura, corpo sem marca. Estava livre.

O frio lhe tomava pelas mãos agora que a compreensão lhe completava. As mãos frias eram seu sinal de calma. O tremor denunciava seus momentos de aflição. Tremia um tremor de família, gerações de pessoas que ignoraram quem eram em função dos outros e que se reuniam dentro dela na tentativa de subir a escada do ser. A mesma que lhes trouxe a esse mundo e os permitiu escapar da existência. Escadas de Escher. Um mundo fantástico, assustador e enigmático como o sorriso do gato. Como o sorriso falso que estampava no rosto por mais vezes do que gostaria de admitir.

Ao alcance de suas mãos trêmulas e frias três agendas, três livros e uma pilha de revistas. Uma relação de compromissos que a mantinha presa ao mundo real retirando o veneno de suas presas. Palavras. Rios de palavras a invadiam, mas nenhuma parecia boa o suficiente para carregá-la por muito tempo. Como queria ser alguma coisa se não se encaixava em nenhum dos rótulos que tentavam lhe dar? Como poderiam saber o que esperar dela se agia como líquido, moldando-se a todas as situações para não decepcionar ninguém? Não sabiam que havia apenas uma pessoa que não poderia decepcionar e disso dependia sua sanidade. E disso se construía seu desespero.

Chovia lá fora e chovia nela.

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