A mulher das aquarelas

Ela tem o mundo nas mãos. O mundo e um coração tão grande que nele cabem todos os sonhos do mundo. Incompreensível é o seu malabarismo. O equilíbrio que mantém para não enlouquecer com a realidade que a cerca, com o passado que lhe corrói e com o cotidiano que a motiva. Encanta, a mulher das aquarelas. A mulher que ao abrir a porta de sua casa também se abre. Se mostra. Revela. Expande. E depois disso, deixa de fechar.

A porta se fecha, mas ela continua lá, simbolicamente aberta, simbolicamente curada, simbolicamente em silencio. Mas ela nunca silencia. Não porque fala, mas porque cala e mesmo muda, não se fecha perante o mundo. Deixa entrar. Deixa vir. Deixa ir, mesmo sabendo que é impossível partir sem mudar. Mudam ela e eu. Mudam as cores na pintura e os pontos nas linhas. Mudam as entrelinhas. Mudam os brancos. Muda o mundo e permanecem as angústias, as dúvidas de um hiato tão curto que é viver. Continua o equilíbrio sobre a corda que cruza o abismo. Voltam as preocupações quando a cidade se aproxima. Ela também não está livre dos cafés ruins.

Voam brisa e fogo de suas palavras. Inflamada, explica e sofre. Talvez se lembre de quando percorria esses pinhais a caminho de casa. Sua casa no coração da floresta, no ponto de encontro entre o terrestre e o divino. Quantos corações batem em uníssono entre essas árvores tão grandes? Quantos corações deixaram de bater antes mesmo de morrer, tomados que estavam pelo desespero? Mas o coração dela bate. Bate forte e machuca para mantê-la viva. Talvez a sua missão nessa passagem pelo mundo seja gritar a expressão do escândalo das incoerências do discurso, das inconstâncias do cotidiano, das falhas da percepção.

Viva demais, se entrega. Não se contentaria em caminhar sobre a corda bamba que cruza o abismo. Ela quer o vento gelado do inverno cortando sua pele durante a queda. Se for preciso cair, cai para compreender. Cai e continua lúcida durante e depois da queda, numa lucidez que fascina pela simplicidade com que trata as coisas do mundo. Encanta a mulher das aquarelas. Mudam ela e eu. Mudam as batalhas. Mudam os palcos. Muda a admiração, que aumenta. Expande. Cresce. Continua. Eterniza em palavra e cor.

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2 comentários sobre “A mulher das aquarelas

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