Agenda

Uma agenda cheia de compromissos a esperava em cima da mesa, no exato lugar em frente ao computador, ao alcance de suas mãos. Tudo para mostrá-la que aquele pedaço de papel era o que comandava sua vida. Seus horários se definiam de acordo com o que a agenda determinava para o dia. Chegava a pensar que aquele caderno tinha vida própria e marcava reuniões, entrevistas e tarefas por conta própria, cabendo a ela o prazer de apenas cumprir o que lhe fora ordenado por algo ou alguém. Um pensamento libertador, afinal. Eximia-lhe toda a culpa. Tão grande eram aquelas listas que já não lhe sobrava tempo de respirar. Estava presa no tráfego das atividades cotidianas. Qualquer que fosse o desvio, teria sua passagem obstruída por um novo trabalho a fazer, mais uma carta para escrever, mais um morto para chorar. Até quando seria capaz de levar aquela vida em que o que menos fazia era viver? Até quando sustentaria a farsa de que tudo aquilo realmente lhe importava quando, na verdade, a única coisa que desejava era a poesia?

Olhou a sua volta e tudo que viu foram cacos. Projetos pela metade, roupas amassadas, chão com poeira. No espelho, raízes por pintar, unhas sem lixar e olheiras. Não parecia tão doente. O espelho não refletia as vozes que se debatiam dentro de seu corpo. Tal como ele, ninguém com quem convivia parecia perceber que quanto mais tentava abafar aquelas vozes, com mais força a golpeavam. Não poderiam saber. Eles não sentiam a mesma dor que ela. Não ouviram o pânico existente naquelas falas e nem viram seus olhos vidrados de pavor. Havia mortos dentro dela. Mortos e feridos, dos quais ninguém se salvou. Mortos vivos que gritavam suas dores cada vez mais alto para que ela os ouvisse. Mas ela não queria ouvir. Eles não poderiam falar por sua boca. Tinha que ser por suas mãos, por onde tudo começou.

Dedos furiosos massacravam o teclado. Era um inocente. Mais um inocente destruído para dar voz ao clamor de uma multidão. A multidão reunida dentro dela. Homens, mulheres e crianças que a devoravam num banquete canibal em que o prato principal era feito de palavras. Sua matéria. Sua forma e substância. Se encontrava sentido na palavra, era delas que se alimentariam. E por isso escrevia. Digitava e enquanto digitava chorava. Era inútil. Suas lágrimas doíam menos que o terror que eles a imprimiam, um sentimento impossível de descrever, pois as palavras já haviam sido devoradas. Eles precisavam do seu texto afetado, pouco planejado e febril. Enquanto escrevia, eram eles que conduziam suas mãos letra após letra, acento após acento. Logo eles, que nem ler sabiam. Ela sabia. Lera sua vida inteira. Escrevera sua vida inteira. Já dera à luz e agora vivia para dar voz. Dessa vez, porém, era diferente. Aqueles mortos a seduziam e ela desejava que usassem das suas mãos, da sua pele, do seu corpo inteiro. Escrevessem nela! Ignorassem a agenda, os compromissos, a mala por fazer, o chão para limpar e a derrubassem sobre um leito de pedra para marcá-la com suas palavras. Escrevessem seus nomes, suas vidas, se unissem a ela ao invés de devorá-la viva com sede de sangue. Servissem seu corpo cru em um banquete canibalesco e usassem suas mãos para continuar escrevendo. Sabia que as vozes não se calariam enquanto não a puxassem para sua cova. Um túmulo coletivo para os corpos encontrados na beira da estrada. Indigentes, dessa vez com história. E poesia.

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