Matemática das almas sobradas

Uma chuva de palavras lhe invadia os ouvidos. Custos, dinheiro, equivalência de capitais. Ignorava aquele que falava torrencialmente que ela nem ao menos estava ali. Nem mesmo seu corpo era perceptível naquele espaço. Bunda na cadeira e ela voava entre o tempo e o espaço enquanto lia o livro grosso que comprara aquela tarde. Simones e Jeans lhe invadiam antes de se deixar terminar de nocautear pelas palavras feridas da outra, daquela que tanto admirava em suas letras. Letras que, como as dela, davam formas e cores e imagens. Letras que fizeram tudo isso por primeiro e a mostraram que era possível. A chama estava acesa.

Mas nadava.

Sob a água da rotina que a afogava, sentia seu peito arder que estava pelo ar que já faltava enquanto fugia dos tentáculos do cotidiano. Uma horda de polvos cotidianos se debatia tentando alcançá-la. Não sabiam que jamais a alcançariam. Estava presa, segura dentro da bolha das palavras não ditas. Entre parêntesis estava salva.

Números manchavam o papel onde antes figuraram letras. Qual era o valor daquele dinheiro imaginário, ela não sabia. A que tipo de capitalização imaginária aquele capital que nunca foi investido estava submetido, também era incapaz de dizer. Suas mãos saberiam, já que resolveram os exercícios riscando lápis sobre a folha. Seu cérebro saberia, já que tentou decifrar o problema encontrando um método mais fácil de resolvê-lo digitando na calculadora.

Mas corria.

Despida das botas em que se equilibrava em saltos finos com o ânimo de uma alpinista, podia sentir a grama fria sob seus pés. Corria entre a mata recheada com tons de terra. Inebriava-se com o cheiro doce do musgo acumulado nos troncos das árvores em que se esfolava ao correr. Delirava com o vento que lhe cortava o rosto. Braços e pernas nus em seu vestido branco. Procurava por Ele, que lhe aparecera no sonho. Ele que já havia assumido tantas formas e vinha novamente para lembra-la de reconhecer sua essência. A essência que lhe fora roubada pelas ventosas carinhosas do cotidiano que a consumira por anos em água salgada. A mesma essência que lhe salvara com as palavras ditas e a saída dos parêntesis.

Não sabia dizer se o investimento era viável. Nem ao menos definia fluxo de caixa, separada que estava de seu cérebro e das transações financeiras.

Mas voava.

Apenas seus olhos corriam livres pelo infinito que se abria a sua frente. Olhos de ressaca pelas noites mal dormidas, pela alimentação inadequada, pelas olheiras que lhe manchavam a pele. Olhos que voavam guiando seus pensamentos e seu corpo já inútil por entre as araucárias daquela terra que deveria cobri-la em alguns anos. Passassem os anos, o que sobraria? Uma alma livre vagando perdida entre um mar de pinus alienígena à paisagem, envenenando o solo e a mata nativa em nome do capital que ela não podia classificar, posto que não lhe pertencia. Sobrariam olhos de cigana, oblíqua e dissimulada à espreita, escondidos atrás de um tronco derrubado da imbuia milenar que também tombou perante o avanço daquele trem que já não passa. Sobraria um monte de ossos enrodilhados em posição fetal dentro do útero da Mãe Terra. Sobraria uma palavra impressa. Sobraria a vida, mesmo que morta.

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