O caminhante do Contestado

Passa o caminhante do Contestado.

Passa e move.

Passa e fica.

Passa e modifica.

Línguas de feras dançam em sua boca sem perder uma única oportunidade de mostrar os dentes. Mas não morde. Ladra. Falam com classe as palavras que lhe saltam pelos lábios, medidas com justeza para causar diversas sensações. Apavora-me ouvi-lo falar. Arrepia-me como antes me arrepiaram suas palavras escritas. Surpreende-me perceber minha própria boca aberta perante seus discursos com o débil desejo de que uma daquelas letras me escolha como sua morada e permaneça colada na língua, saltando sempre que possível. Não me escolheram. Silencia minha voz enquanto escrevo, agora encantada com o eco da sua voz que ainda ecoa em mim, ainda arrancando as mesmas águas que me cobriram os olhos às escondidas.

Segue o caminhante do Contestado.

Segue movendo.

É um homem em guerra que segue estrada acima com a bandeira do Contestado amarrada nas costas. Cajado na mão para suportar o fardo de carregar um corpo consigo. Elevo-me ao imaginar seu corpo livre enquanto a mente voa e as palavras falam e dizem mais que as histórias exaustivamente repetidas. Em vão, tento me prender em uma das cordas que o seguram ao que é terreno. Cordas de palavras ditas, escritas e sentidas que evanescem em sua própria beleza e realismo. Real demais é esse homem. É essa Guerra. É esse chão de terra batida que o progresso abandonou. Reais demais são as evidências do passado e do presente e do futuro que não tarda e mesmo assim não desponta.

Continua o caminhante do Contestado.

Continua e fica.

Emudece. Também a ele se reservam os silêncios. Silencia dolorosamente, pasmo pelas mudanças da paisagem, trazidas pelo mesmo e sempre o mesmo capital. O cifrão que assalta com frieza maior que o cano da arma encostado na boca. O dinheiro que sangra gentes e animais e árvores e terras. Sanguíneo é o capital inserido no Contestado. De sangue é o contraste com a brancura da bandeira ainda amarrada ao corpo daquele que se cala. Hesitam ele e os demais – nós, enquanto aguardamos a próxima palavra. E ela vem. E quando chega, perfura com o som de mais uma bala cortando o vento daquelas paragens. Uma bala humana. Uma bala de carne, ossos e sangue que perfura e se aloja no coração.

Essa era a bala que o caminhante do Contestado guardava. Alojada no meu coração, cubro-a com a bandeira branca. Cruz verde sobre bala vermelha, passa o caminhante do Contestado. Passa e modifica. Fica e deixa saudades.

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2 comentários sobre “O caminhante do Contestado

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