Espelhos

A saída do invisível. Eram duas máscaras que se encaravam. Vacilantes coberturas de maquiagem tomavam café e conversavam com formalidade. Por quanto tempo suportariam aquelas almas atormentadas? Não muito, diriam mais tarde ao perceber que as armaduras caíam a cada passo que davam. Uma para dentro da outra e então eram duas. Duas mulheres em busca de uma voz que as ouvisse. Duas vozes novas para duas vidas que precisavam de um sopro de humanidade. Talvez tenham percebido o germinar da admiração inquietar seus corações. Talvez tenham tentado se apropriar daqueles momentos com tanta garra que já não tinham mais medo de sair feridas daquele encontro. Embora feridas tenham ficado. Embora sempre hajam novas feridas a serem curadas.

Não era domingo. Mas os domingos se sucedem às despedidas que sempre são dolorosas. São dias cotidianos que se arrastam fazendo pesar cabeça, corpo e membros. Rangem os joelhos, doem os ombros, endurece o pescoço que precisa sustentar uma cabeça onde vagam pensamentos tão livres. Livres de todas as amarras gramaticais, voam palavras a esmo e nocauteiam aquela que escreve. Enquanto escreve, cansa como se corresse uma maratona. Ou 100 metros, que pra ela eram a mesma coisa.

O que importam as distâncias e os mapas para quem tem, dentro de si, toda leveza do mundo? Leve demais, também pesava. Tropeçava entre os sons e o silêncio, as presenças e os vazios, as cores e os sabores. Despida de sua máscara, caíra nua nas garras do mundo. E descobrira gostar do sabor do seu próprio sangue oferecido em sacrifício para o deus das coisas. Descobrira que desejava engordar das coisas para se oferecer com maior peso e tamanho. Desejava o punhal sagrado lhe arrancando o coração ainda batendo. Era americana, afinal. Talvez em alguma vida tivesse assistido o ritual em êxtase ou pânico. Talvez apenas acreditasse que a dor seria menor, já que terminaria. Terminaria? Poderia perguntar-lhe a outra, igualmente desmascarada e correta mais uma vez. Ambas sabiam que não, mas quem sabe preferissem ignorar e tomar outra taça de vinho enquanto o domingo não desponta.

Se aproxima o domingo. Com ele, as máscaras novamente. Ajuntadas do chão, inquebráveis. Vestem enquanto sobrevivem as duas mulheres – enquanto lutam cada qual com os seus demônios. Já não são as mesmas daquela tarde que se transformou em noite que durou uma vida inteira. Mão para dentro do espelho e estavam livres. Eu estava.

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