Enforcados

Amanhece no Contestado. Olho pela janela sem ver o cano da arma apontada para minha testa, sem sentir a sua frieza ou a quentura da bala que estoura os miolos e faz voar sangue para manchar as paredes. São limpas e brancas as paredes da minha casa. Limpas como o vidro da janela que me permite olhar para um mundo de possibilidades que se desenha no horizonte apontando para todos os tipos de voo que eu poderia alçar. Bastaria escolher o avião e estaria livre para abandonar essa terra tão marcada e cujas marcas já são invisíveis.

Não se veem os sulcos de patas raivosas abertos no chão, ou os projéteis caídos na grama. Não se veem as árvores derrubadas, ou as igrejas queimadas. O que se vê? Nada? Não! Há a água e o riso e um todo espaço preenchido pela ignorância de não querer ver. Veem-se os olhos fechados e as bocas abertas vomitando palavras e ideias com a irresponsabilidade de quem não compreende que a frase também é corda que enforca – às vezes com carinho. Mas quem fala tanto fala que já não se percebe, irreconhecível numa hemorragia de letras que fogem descontroladas antes que sejam pronunciadas por aqueles lábios imaculados. São lábios limpos como as minhas paredes e janelas. São lábios cobertos pelo véu da Virgem Maria e que sabem invocar a Deus e ao Diabo com a mesma fé. São lábios em perigo, que não me servem.

Me servem as bocas sujas pela heresia de rezar sua própria crença, os olhos que se abrem e veem o mundo à sua maneira e os punhos erguidos num brado plural que expulsa a individualidade do discurso. Analfabetos que falam simples, tecendo a corda que os enforcaria por sua trama avessa aos interesses de quem não faz a corda, não conhece a corda e ama a corda como a uma mãe zelosa que o embala no sibilar da cobra, lambendo-o com sua língua bifurcada. Me bastam os tecedores de cordas de ideias que poderiam não ver o amanhecer, pois as chances deles não são iguais as minhas já que suas bocas são sujas. Artesãos de tramas e vidas que viram suas paredes clarearem e suas janelas se abrirem em meio ao quadro de concreto em que estavam reunidos. Paredes erguidas sem identidade. Então suas casas são suas e se coloriram e seus carros brilharam e seus dentes se abriram em sorriso pela alegria de poder viver como são. E então o sol despontou. Salvaram-se os vivos e as cordas.

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Roda gigante

Para onde olhavam aqueles olhos que fitavam para além do pôr do sol? Inundados pelo alaranjado do dia que se extinguia para deixar nascer a lua na outra ponta do mundo tão redondo quanto o ventre que súbito se expande para gestar a nova vida. Eram olhos equilibrados na gangorra dos dias da semana que se seguiam infinitamente apontando para um calendário interminável. Mas por um momento, um único segundo que durou um pouco mais do que o aceitável para os padrões comuns da percepção, os raios alaranjados do sol que morria no Oeste lhe sopraram um sopro de vida. Vento que esfriava as peles já cobertas pelos casacos e bagunçava os cabelos já desalinhados pelo cansaço físico e emocional a que estavam não somente expostos, mas submetidos.

Sopravam as cores que se desenhavam enrolando-se nas araucárias que se erguiam em silenciosa resistência. Majestosa resistência que reinava naquele instante tão único e continuava a soprar em versos e prosas e passos e formas e linhas e cuias e imbuias e sorrisos e cabelos e peles e pelos eriçados de frio e salivas que escorrem e línguas que se tocam e espinhas que se arrepiam e lábios que se abrem e dentes que se fecham e mãos que correm e unhas que agarram e gemidos que aumentam e soam altos, sonoros e significantes como os sinos das catedrais que já não existem. Existem os suspiros, o suor e a carícia enquanto a fumaça parte do cinzeiro para alcançar as araucárias, as nuvens, o céu e as estrelas. Pudessem, qualquer um se deixaria levar em seu voo leve em busca do divino porque de terreno já lhes bastava a vida e a terra úmida pelo anoitecer que lhes marcava a pele nua.

Tão nus quanto no nascimento, foi assim que continuaram aqueles olhos enquanto caminhavam o caminho da vida com seu passo bêbado de tanta existência enquanto o dia deixava de existir para dar lugar à noite iluminada pela lua quase cheia que já ocupava seu espaço reservado nos céus, observando-os de camarote. Uma lua fina, brilhante como os diamantes das madames que se enfileiravam nas poltronas dos teatros com seus cabelos erguidos em penteados complicados, trajando seus melhores vestidos e joias para impressionar as demais mulheres da sociedade. Não viram as outras com seus cabelos cascateando pelas costas, pois não faziam parte daquele mundo. Eram a margem. A mesma margem por onde avançariam legiões de pessoas em grito de guerra, atrás de uma bandeira física ou imaginária.

Voz silenciada, restou o eco daquele pôr do sol que terminou forçando sua entrada no horizonte do mundo e daquele coração que se abria novamente para deixar entrar a luz das estrelas e do luar. Fraca luz que tremulava se enfiando por entre as folhas daquelas árvores que se levantavam do chão onde permanecia, iluminando o pouco que podia para criar um ambiente mais poético. Não clareia a araucária ou os lábios que voltam a se abrir em riso vermelho. Trilhos vermelhos que escorrem através das veias abertas de onde florescem coágulos de vida que sussurram mistérios nos ouvidos de quem observa.

Quem observa? Ela já tem os olhos fechados enquanto se enrosca em seus próprios pensamentos. Não vê a lua, ou os trilhos. Em êxtase, continua embriagada de pôr do sol desejando que os momentos nunca terminem. Pelo contrário, que cresçam, se expandam, floresçam, se abram, se temperem, se consumam. Saciava sua fome e sede com bons momentos guardados na lembrança. Preciosidades que iam e viam fazendo balançar o berço do bebê que dormia sem ver a lua ou seu desejo de iluminar os amantes que rolaram na grama em busca do próprio prazer. Lua tão indiscreta quanto os sonhos daquela mãe que fantasiava sentindo seus mamilos endurecerem na espera de uma língua que os tocassem, despertando-os do sono a que estavam submetidos desde que a solidão bateu-lhe à porta, invadindo seus dias e pensamentos. Ocupava o espaço antes destinado às lingeries rendadas que pouco cobriam as vergonhas e às meias que lhes subiam até as coxas. Riscos pretos sobre pele branca e seu corpo era papel para que pudessem escrever uma história de amor ou de solitárias reticências. Silêncio de mão pesada que lhe tapava a boca e dedos firmes que apertavam a garganta, marcando suas digitais naquele corpo que desejava o ardor dos fetiches mais obscenos que qualquer pornografia ousou reproduzir em qualquer parte daquele mundo que girava numa Via Láctea que vagava perdida no infinito.

Quem observava senão um ser infinitamente dispensável para a continuidade daquela vida que se desenrolava a cada giro do mundo em torno de si mesmo? Era uma pessoa. Uma mulher, encharcada pelo orgasmo e pelas lágrimas de sal enquanto permanecia algemada aos seus desejos e livre em busca e espera. Adormeciam, ela e o dia, acorrentados ao sopro de existir.

Alegoria

Sentada no balanço, seus pés se desprenderam do chão. Não precisariam, já que há muito andavam pisando em nuvens esparsas que formavam aquele caminho. Pulava de uma a outra se segurando na mais frágil esperança para escapar da queda. Queda eminente. Mas não para ela. Ela, que se balançava suavemente para sentir a brisa daquele verão que insistia em chegar, continuaria nas nuvens – cabeça, corpo e membros, nem que para isso fosse preciso evaporar. Ela que evaporaria, cedo ou tarde, fundindo-se às fantasias que brotavam em seus pensamentos. Eram grandes flores carnívoras. Gigantes que rompiam o asfalto, estrangulando edifícios e abraçando os trilhos. Era sobre os trilhos que esperava. Mas esperava pelo quê se não havia mais trem para correr? E se nem mais trilho havia para lhe indicar o caminho? E se o caminho se perdia entre as encruzilhadas?

No céu, desenhava-se um sorriso. Lábios que se abriam em riso fácil, gargalhada que se expandia deixando cair as máscaras que cobriam a cidade. Era a alegria em forma de gente que coloria uma escada em sua direção para que escapasse. Não era estranha às escadas. Desceu a escada do ser ao chegar a esse mundo, escapando do passado para se enfiar nas entranhas da realidade. De quantos passados já fugiu? De quantas realidades escapou?

Escapava-lhe também a noite. Madrugada à dentro, escorriam as horas por seus dedos que massacravam o teclado em êxtase. De repente, amava a si mesma e à própria dor. Amava ver seu corpo sangrar em linhas e palavras e pontos e frases desconexas ao leitor ignorante do caos que vivia. Eram cacos – ela e as palavras. Fragmentos de gentes e frases que sobreviviam à batalha pela existência enquanto ela ainda tinha forças para escrever. Fugiam-lhe também a força e a obra-prima. Estava vendida. Rendida perante o sorriso que se abria nas nuvens. Colada aos lábios fáceis. Presa no gargalhar expandido.

Em nova realidade, também eram novos os medos. Já não temia mais o orgulho ferido. Voltara ao básico para temer a solidão e o silêncio de seus demônios. Não os queria em paz. Enquanto o mundo desejava os brancos, ela queria os vermelhos. Queria o caos. Queria as feras do inferno dentro de seu corpo para devorá-la em carne viva enquanto vivia a vida com seu passo bêbado e sóbrio e lúcido demais para entender qualquer coisa. Queria a beleza das coisas não classificadas. Queria o erro mudo que se calou na tentativa de cessar a dor. Não sabiam que se alimentava da dor? De seu próprio sangue servido em taças? Não fora assim que sua cidade nascera? Filete de sangue escorrido da uva e Videira estava lá – imaculada aos pés de Imaculada Conceição enquanto ela continuava suja de sangue. Um sangue que já tomara suas linhas de assalto mais vezes do que gostaria. Sangue dela e dos outros, que corre ainda e jamais cessará de correr.

De um coágulo de sangue, nasceu o mundo. Com um coágulo de vida, pintou-se de mulher. Em uma vida que coagula, voou na nuvem dos sorrisos.

Anoitecer em Matos Costa

Baixava o sol em Matos Costa, anunciando o final de mais um dia. Lua no céu e eles ainda caminhavam. Iam em direção ao ônibus – mais um embarque. Era mais um caminho que se construiria abaixo de seus pés e em suas memórias e em seus corações. Caminhavam como quem anda flutuando em puro sentimento. Eram corações sangrando que seguiam em direção ao sol que se escondia. E que mais tarde continuariam seguindo para suas vidas cotidianas. Sempre em frente. Sem tempo a perder.

Tinham tempo para chorar aqueles mortos que não eram deles? Não tinham. Arranjariam, porém. Porque mesmo não sendo deles, sentiam que os pertenciam. Partilharam emoções demais com aqueles pés de vassourinha para continuarem os mesmos. Reconstruiriam o caminho e a eles. Passo seguido de passo, tijolo seguido por tijolo e jamais estariam prontos. Nem o queriam.

Nasceu o sol. Era domingo. Era segunda. Era semana. Eram 100 anos de luzes e sombras estendidas pelo Contestado.

Santa Maria III

Levantou ao alvorecer com a lucidez de quem sabia que a morte era certa. Galopavam foices da morte trajando os uniformes do exército. Roupas como as dele também cobriam os esqueletos de quem os caçava. Tinha certeza. Uma certeza que se acumulava em suas narinas recheadas pelo cheiro de sangue e que não era sangue de parto para ver sorrir as mulheres em meio à dor, ao suor e às lágrimas pela vida. Era a vida derramada para embriagar a terra. Privados de carne e cachaça, sobrou o sangue enquanto agonizavam em espera. Não teriam ajuda. Não teriam alimento. Não teriam casas. Não teriam morte ou vida.

Restavam as pernas eretas. Pescoços erguidos. Punhos em direção aos céus. Espadas na mão para combater as chamas do fogo que se erguia consumindo suas casas e famílias. Restava a pele que ardia em brasa e fuligem enquanto os pés empreendiam fuga. Para onde? Para quem? Por quê? Por quem?

Lembranças também os consumiam causando estragos maiores que as línguas de fogo que lambiam os beiços de Santa Maria. Memórias do último beijo com gosto de amor, da tábua erguida, do feijão cozido em fogo de chão, do gozo em comunhão com o projeto divino da procriação, do gemido que se unia ao estalar da cama. Tropeçavam em memórias enquanto fugiam de si mesmo e do que representavam para si e para os outros. Tropeçavam as vacilantes pernas em fuga pela sobrevivência – não deles, mas daquela vida que os tinha moldado com o barro da existência. Caíam de joelhos perante seus sonhos tão distantes, tão alheios aquele progresso que não lhes pertencia. Flutuavam com o vento que fazia chorar araucárias que recebiam as chamas da vingança trazidas pelo orgulho ferido de um Estado tão assassino quanto negociável. Não sabiam, os que morriam (e os que morreram) que suas cabeças já haviam sido vendidas. Eram eles as onças. Animais exóticos a quem caberia decorar as casas burguesas e os peitos oficiais coroados de estrelas.

Acaso não batiam os corações dos peitos republicanos? Acaso não lhes doíam os pés e os joelhos de tanto correr por esse mato? Orgulhar-se-iam, aqueles homens do futuro desenvolvido, de matar pau com pedra?

Erguiam-se perguntas em meio à fumaça que anunciaria as boas novas ao povo de bem que jamais abandonou o calor aromático do colo da mãe que suava com casacos de pele em pleno clima tropical. Notícias sobre os facínoras homens do atraso que fariam descansar os bons homens do futuro, banqueteando em móveis de madeira de lei extraída sob o aval da mesma lei que os permitiu cortar gargantas. Notícias fumegantes que iluminaram o dia de tantas capitais. Saberiam, nossos homens do futuro, que o brado furioso dos que perguntaram qual era o seu lugar no mundo ainda ecoa no sertão?

As rosas do Contestado

Elas crescem em silenciosa resistência. São flores que não contaram com os favores da fotografia para se oferecerem perante os canhões, imortalizadas em imagem. Também não contaram com a jardinagem para lhes podarem as arestas dar qualquer forma. Assim crescem as rosas em Santa Maria. Livres. Inconstantes. Vermelhas em sua dor, avermelhando tantas dores que se extinguiram sob a luz do fogo que ardia em milhares de casas e corpos e igrejas e árvores. Uma vida em chamas que se apagou enterrada no próprio silêncio.

Às vezes, gritam as rosas de Santa Maria. Dizem muito mais do que as minhas palavras poderiam alcançar. São símbolos de que os sonhos não morrem com fogo ou bala. São provas de que a esperança, sufocada com a falta de oxigênio na fogueira do reduto, continua presente no ar. Provam que esse e tantos outros verdes ainda se renovam como se renovaram as águas do Lava Tripa, do Caçador, do Rio do Peixe e de tantos outros. Renovam também as nossas esperanças e se calam.

Quietas enquanto o vento passa, as roseiras são duas e são muitas. Mas são poucas para receber toda carga que lhes é destinada como símbolos – já que de outros símbolos Santa Maria tem apenas vestígios. São parte nossa. Nós, que ficamos em Santa Maria depois de deixar o Vale da Morte e nele depositar nossas lágrimas, medos e fracassos. Renascemos. Elas ficaram para seguir conosco como presença viva em nossos corações. Continuam em minha memória expandida para receber toda carga de sentimentos que trazem em suas folhas. Brotam nas linhas que saem das mãos que não puderam tocá-las, horrorizadas que estavam. Florescem nos ensaios que as colocarão em evidência no palco, no lugar da arte, para ganhar espaço no campo reflexivo. Enraízam-se em meu coração para que seja possível encontrar algum sentido nessa Guerra e nessa vida que segue “sem cor, sem perfume, sem rosas, sem nada”.