As rosas do Contestado

Elas crescem em silenciosa resistência. São flores que não contaram com os favores da fotografia para se oferecerem perante os canhões, imortalizadas em imagem. Também não contaram com a jardinagem para lhes podarem as arestas dar qualquer forma. Assim crescem as rosas em Santa Maria. Livres. Inconstantes. Vermelhas em sua dor, avermelhando tantas dores que se extinguiram sob a luz do fogo que ardia em milhares de casas e corpos e igrejas e árvores. Uma vida em chamas que se apagou enterrada no próprio silêncio.

Às vezes, gritam as rosas de Santa Maria. Dizem muito mais do que as minhas palavras poderiam alcançar. São símbolos de que os sonhos não morrem com fogo ou bala. São provas de que a esperança, sufocada com a falta de oxigênio na fogueira do reduto, continua presente no ar. Provam que esse e tantos outros verdes ainda se renovam como se renovaram as águas do Lava Tripa, do Caçador, do Rio do Peixe e de tantos outros. Renovam também as nossas esperanças e se calam.

Quietas enquanto o vento passa, as roseiras são duas e são muitas. Mas são poucas para receber toda carga que lhes é destinada como símbolos – já que de outros símbolos Santa Maria tem apenas vestígios. São parte nossa. Nós, que ficamos em Santa Maria depois de deixar o Vale da Morte e nele depositar nossas lágrimas, medos e fracassos. Renascemos. Elas ficaram para seguir conosco como presença viva em nossos corações. Continuam em minha memória expandida para receber toda carga de sentimentos que trazem em suas folhas. Brotam nas linhas que saem das mãos que não puderam tocá-las, horrorizadas que estavam. Florescem nos ensaios que as colocarão em evidência no palco, no lugar da arte, para ganhar espaço no campo reflexivo. Enraízam-se em meu coração para que seja possível encontrar algum sentido nessa Guerra e nessa vida que segue “sem cor, sem perfume, sem rosas, sem nada”.

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3 comentários sobre “As rosas do Contestado

  1. Angela, lindas rosas saem da tua mente e do teu coração, inundam aquele lugar esquecido, com palavras, sentimentos e realidades esquecidas, tanto no passado como no presente. Desvendando-as, ajudas no rompimento dessa invisibilidade secular, assim como rompes o silêncio dos que foram calcinados e estão depositados sob tais roseiras. Pense comigo: as raízes dessas roseiras acalentam a dor dos que estão depositados sob elas. Ossos cheios de dor recebem o carinho singelo de filetes de raízes das roseiras de Santa Maria. Santa Maria existe! O Contestado existe! Nós existimos lá! Beijos cheios de carinho para Ti!

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