Santa Maria III

Levantou ao alvorecer com a lucidez de quem sabia que a morte era certa. Galopavam foices da morte trajando os uniformes do exército. Roupas como as dele também cobriam os esqueletos de quem os caçava. Tinha certeza. Uma certeza que se acumulava em suas narinas recheadas pelo cheiro de sangue e que não era sangue de parto para ver sorrir as mulheres em meio à dor, ao suor e às lágrimas pela vida. Era a vida derramada para embriagar a terra. Privados de carne e cachaça, sobrou o sangue enquanto agonizavam em espera. Não teriam ajuda. Não teriam alimento. Não teriam casas. Não teriam morte ou vida.

Restavam as pernas eretas. Pescoços erguidos. Punhos em direção aos céus. Espadas na mão para combater as chamas do fogo que se erguia consumindo suas casas e famílias. Restava a pele que ardia em brasa e fuligem enquanto os pés empreendiam fuga. Para onde? Para quem? Por quê? Por quem?

Lembranças também os consumiam causando estragos maiores que as línguas de fogo que lambiam os beiços de Santa Maria. Memórias do último beijo com gosto de amor, da tábua erguida, do feijão cozido em fogo de chão, do gozo em comunhão com o projeto divino da procriação, do gemido que se unia ao estalar da cama. Tropeçavam em memórias enquanto fugiam de si mesmo e do que representavam para si e para os outros. Tropeçavam as vacilantes pernas em fuga pela sobrevivência – não deles, mas daquela vida que os tinha moldado com o barro da existência. Caíam de joelhos perante seus sonhos tão distantes, tão alheios aquele progresso que não lhes pertencia. Flutuavam com o vento que fazia chorar araucárias que recebiam as chamas da vingança trazidas pelo orgulho ferido de um Estado tão assassino quanto negociável. Não sabiam, os que morriam (e os que morreram) que suas cabeças já haviam sido vendidas. Eram eles as onças. Animais exóticos a quem caberia decorar as casas burguesas e os peitos oficiais coroados de estrelas.

Acaso não batiam os corações dos peitos republicanos? Acaso não lhes doíam os pés e os joelhos de tanto correr por esse mato? Orgulhar-se-iam, aqueles homens do futuro desenvolvido, de matar pau com pedra?

Erguiam-se perguntas em meio à fumaça que anunciaria as boas novas ao povo de bem que jamais abandonou o calor aromático do colo da mãe que suava com casacos de pele em pleno clima tropical. Notícias sobre os facínoras homens do atraso que fariam descansar os bons homens do futuro, banqueteando em móveis de madeira de lei extraída sob o aval da mesma lei que os permitiu cortar gargantas. Notícias fumegantes que iluminaram o dia de tantas capitais. Saberiam, nossos homens do futuro, que o brado furioso dos que perguntaram qual era o seu lugar no mundo ainda ecoa no sertão?

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