Alegoria

Sentada no balanço, seus pés se desprenderam do chão. Não precisariam, já que há muito andavam pisando em nuvens esparsas que formavam aquele caminho. Pulava de uma a outra se segurando na mais frágil esperança para escapar da queda. Queda eminente. Mas não para ela. Ela, que se balançava suavemente para sentir a brisa daquele verão que insistia em chegar, continuaria nas nuvens – cabeça, corpo e membros, nem que para isso fosse preciso evaporar. Ela que evaporaria, cedo ou tarde, fundindo-se às fantasias que brotavam em seus pensamentos. Eram grandes flores carnívoras. Gigantes que rompiam o asfalto, estrangulando edifícios e abraçando os trilhos. Era sobre os trilhos que esperava. Mas esperava pelo quê se não havia mais trem para correr? E se nem mais trilho havia para lhe indicar o caminho? E se o caminho se perdia entre as encruzilhadas?

No céu, desenhava-se um sorriso. Lábios que se abriam em riso fácil, gargalhada que se expandia deixando cair as máscaras que cobriam a cidade. Era a alegria em forma de gente que coloria uma escada em sua direção para que escapasse. Não era estranha às escadas. Desceu a escada do ser ao chegar a esse mundo, escapando do passado para se enfiar nas entranhas da realidade. De quantos passados já fugiu? De quantas realidades escapou?

Escapava-lhe também a noite. Madrugada à dentro, escorriam as horas por seus dedos que massacravam o teclado em êxtase. De repente, amava a si mesma e à própria dor. Amava ver seu corpo sangrar em linhas e palavras e pontos e frases desconexas ao leitor ignorante do caos que vivia. Eram cacos – ela e as palavras. Fragmentos de gentes e frases que sobreviviam à batalha pela existência enquanto ela ainda tinha forças para escrever. Fugiam-lhe também a força e a obra-prima. Estava vendida. Rendida perante o sorriso que se abria nas nuvens. Colada aos lábios fáceis. Presa no gargalhar expandido.

Em nova realidade, também eram novos os medos. Já não temia mais o orgulho ferido. Voltara ao básico para temer a solidão e o silêncio de seus demônios. Não os queria em paz. Enquanto o mundo desejava os brancos, ela queria os vermelhos. Queria o caos. Queria as feras do inferno dentro de seu corpo para devorá-la em carne viva enquanto vivia a vida com seu passo bêbado e sóbrio e lúcido demais para entender qualquer coisa. Queria a beleza das coisas não classificadas. Queria o erro mudo que se calou na tentativa de cessar a dor. Não sabiam que se alimentava da dor? De seu próprio sangue servido em taças? Não fora assim que sua cidade nascera? Filete de sangue escorrido da uva e Videira estava lá – imaculada aos pés de Imaculada Conceição enquanto ela continuava suja de sangue. Um sangue que já tomara suas linhas de assalto mais vezes do que gostaria. Sangue dela e dos outros, que corre ainda e jamais cessará de correr.

De um coágulo de sangue, nasceu o mundo. Com um coágulo de vida, pintou-se de mulher. Em uma vida que coagula, voou na nuvem dos sorrisos.

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