Roda gigante

Para onde olhavam aqueles olhos que fitavam para além do pôr do sol? Inundados pelo alaranjado do dia que se extinguia para deixar nascer a lua na outra ponta do mundo tão redondo quanto o ventre que súbito se expande para gestar a nova vida. Eram olhos equilibrados na gangorra dos dias da semana que se seguiam infinitamente apontando para um calendário interminável. Mas por um momento, um único segundo que durou um pouco mais do que o aceitável para os padrões comuns da percepção, os raios alaranjados do sol que morria no Oeste lhe sopraram um sopro de vida. Vento que esfriava as peles já cobertas pelos casacos e bagunçava os cabelos já desalinhados pelo cansaço físico e emocional a que estavam não somente expostos, mas submetidos.

Sopravam as cores que se desenhavam enrolando-se nas araucárias que se erguiam em silenciosa resistência. Majestosa resistência que reinava naquele instante tão único e continuava a soprar em versos e prosas e passos e formas e linhas e cuias e imbuias e sorrisos e cabelos e peles e pelos eriçados de frio e salivas que escorrem e línguas que se tocam e espinhas que se arrepiam e lábios que se abrem e dentes que se fecham e mãos que correm e unhas que agarram e gemidos que aumentam e soam altos, sonoros e significantes como os sinos das catedrais que já não existem. Existem os suspiros, o suor e a carícia enquanto a fumaça parte do cinzeiro para alcançar as araucárias, as nuvens, o céu e as estrelas. Pudessem, qualquer um se deixaria levar em seu voo leve em busca do divino porque de terreno já lhes bastava a vida e a terra úmida pelo anoitecer que lhes marcava a pele nua.

Tão nus quanto no nascimento, foi assim que continuaram aqueles olhos enquanto caminhavam o caminho da vida com seu passo bêbado de tanta existência enquanto o dia deixava de existir para dar lugar à noite iluminada pela lua quase cheia que já ocupava seu espaço reservado nos céus, observando-os de camarote. Uma lua fina, brilhante como os diamantes das madames que se enfileiravam nas poltronas dos teatros com seus cabelos erguidos em penteados complicados, trajando seus melhores vestidos e joias para impressionar as demais mulheres da sociedade. Não viram as outras com seus cabelos cascateando pelas costas, pois não faziam parte daquele mundo. Eram a margem. A mesma margem por onde avançariam legiões de pessoas em grito de guerra, atrás de uma bandeira física ou imaginária.

Voz silenciada, restou o eco daquele pôr do sol que terminou forçando sua entrada no horizonte do mundo e daquele coração que se abria novamente para deixar entrar a luz das estrelas e do luar. Fraca luz que tremulava se enfiando por entre as folhas daquelas árvores que se levantavam do chão onde permanecia, iluminando o pouco que podia para criar um ambiente mais poético. Não clareia a araucária ou os lábios que voltam a se abrir em riso vermelho. Trilhos vermelhos que escorrem através das veias abertas de onde florescem coágulos de vida que sussurram mistérios nos ouvidos de quem observa.

Quem observa? Ela já tem os olhos fechados enquanto se enrosca em seus próprios pensamentos. Não vê a lua, ou os trilhos. Em êxtase, continua embriagada de pôr do sol desejando que os momentos nunca terminem. Pelo contrário, que cresçam, se expandam, floresçam, se abram, se temperem, se consumam. Saciava sua fome e sede com bons momentos guardados na lembrança. Preciosidades que iam e viam fazendo balançar o berço do bebê que dormia sem ver a lua ou seu desejo de iluminar os amantes que rolaram na grama em busca do próprio prazer. Lua tão indiscreta quanto os sonhos daquela mãe que fantasiava sentindo seus mamilos endurecerem na espera de uma língua que os tocassem, despertando-os do sono a que estavam submetidos desde que a solidão bateu-lhe à porta, invadindo seus dias e pensamentos. Ocupava o espaço antes destinado às lingeries rendadas que pouco cobriam as vergonhas e às meias que lhes subiam até as coxas. Riscos pretos sobre pele branca e seu corpo era papel para que pudessem escrever uma história de amor ou de solitárias reticências. Silêncio de mão pesada que lhe tapava a boca e dedos firmes que apertavam a garganta, marcando suas digitais naquele corpo que desejava o ardor dos fetiches mais obscenos que qualquer pornografia ousou reproduzir em qualquer parte daquele mundo que girava numa Via Láctea que vagava perdida no infinito.

Quem observava senão um ser infinitamente dispensável para a continuidade daquela vida que se desenrolava a cada giro do mundo em torno de si mesmo? Era uma pessoa. Uma mulher, encharcada pelo orgasmo e pelas lágrimas de sal enquanto permanecia algemada aos seus desejos e livre em busca e espera. Adormeciam, ela e o dia, acorrentados ao sopro de existir.

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2 comentários sobre “Roda gigante

  1. Um sopro de existência, ler o que sai da tua cabecinha mágica! Muito lindo! Viajo nas tuas letras, nas tuas palavras, nos teus parágrafos… Há um todo de ti aqui: “Trilhos vermelhos que escorrem através das veias abertas de onde florescem coágulos de vida que sussurram mistérios nos ouvidos de quem observa.”

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