Baile de máscaras

Ela estava no salão, mas não na pista de dança. Também não estava no bar, embora seu copo estivesse sempre cheio. Continuava sentada em sua mesa naquele canto escuro em que a fraca luz do abajur sobre a mesa nem ao menos iluminava seu rosto. Como clarearia seus pensamentos entorpecidos pelo whisky? Duplo, com gelo, por favor. Quem sabe fosse melhor deixá-lo desligado para que pudesse observar as pessoas que dançavam e cantavam e viviam. Ela não vivia. Ela continuava à margem de si mesma, apartada do mundo, sentada a uma mesa de canto, no escuro, escondida na companhia da própria sombra. Embalada por seus desejos, não percebeu que poderia realiza-los. E continuou sentada enquanto a vida passava depressa.

Uma vida que passou levando seus antigos sonhos de… de ser o que? Quem? Não era capaz de lembrar. Lembrar seria negar seus anos de fuga em que o vento lhe cortou a pele para que se reconstruísse. Pele nova e limpa, podia ser o que quisesse. Mas já não podia. Seu poder de regeneração se perdeu na curva do caminho em que caiu em si e descobriu que seu lugar não era naquela mesa de abajur de luz fraca. Seu verdadeiro lugar era em cima da mesa, no palco particular e público de uma vida que queria se libertar daquelas veias amarradas de cotidiano. Em pé, salto alto sobre a mesa de toalha vermelha, pisando em clichês de vinho barato e cigarros no cinzeiro, não precisaria mais correr por medo de não controlar seu ímpeto ou pelo pavor do improviso, palavra que escapa sem destino e voa, sem rumo. Apavorava-lhe o próprio bater de asas e o voo que insistia em lhe perseguir para guiá-la em direção a uma vida que não desistira dela. E não desistiria porque pulsava no impulso daquele mesmo coração que ainda não se cansara de bater e doer suas costelas.

Mas não subiria na mesa ou dançaria no palco. Vivera excessos de menos para se deixar experienciar novamente. Bastavam-lhe as histórias vividas e esquecidas, negligenciadas e varridas para baixo do tapete. Também lhe apavorava a poeira que se acumulava nela e no abajur que ocupava o lugar que era dela. Passasse os dedos sobre sua superfície poderia sentir aquela poeira fria e cinza como as raízes dos cabelos que insistiam em crescer em tantas outras mulheres que estavam na pista. Quantas pintavam seus cabelos para não dar voz à idade que avançava? Quantas saberiam que ela também pintava e que tacar tinta vermelha naquele rio de fios embaraçados era sua forma de gritar com o mundo e para o mundo de forma que a ouvissem? Mas quem ouviria quem estava à margem de si mesma, apartada do mundo, sentada a uma mesa de canto, no escuro, escondida na companhia da própria sombra?

Não tinha reparado no copo suado que umedeceu a toalha, marcando-a. Suavam o copo e seu corpo. Gotas de vida que brotavam em sua testa e entre seus seios espremidos na roupa escolhida para evidenciar sua magreza. Quem era o copo para ser mais livre que ela e derramar seu suor manchando o tecido com sua presença? E quem era aquele abajur poeirento que ocupava seu lugar? Um lugar que tampouco era sobre a mesa. Desejava a pista, o som ensurdecedor, a visão turva, a inspiração que a transportava daquele tempo e lugar para levá-la a um novo mundo em que podia ser quem quisesse. Desejava o ópio, a busca do que havia além do oriente do oriente do oriente. Desejava a si mesma, consumindo-se em chamas de paixão pelo próprio corpo e pessoa. E por desejo era ela mesma, era suas mãos que ardiam na tentativa (falha) de se autossabotar. Era um par de mãos que queimavam furiosas pelo ardor das verdades que seu corpo queria gritar mas que não encontravam passagem pela boca, sempre fechada às palavras e aos beijos e às línguas e aos dentes que há tempo não lhe tocavam os lábios. Lábios que nem bem se abriam, fechavam com medo de deixar escapar um pecado, uma confissão ou uma heresia. Lábios que não conheciam os desejos daquele coração que ansiava pelo fogo do inferno se enfiando entre suas pernas. Lábios que não se traíam ao deixar escapar seu riso vermelho e que tampouco foram traídos ao se abrir em um gemido quando as mãos dos anjos lhe tocaram causando arrepios de medo e excitação. Era energia, toda ela. Energia que queria se libertar em um grito único, sonoro e alto de um prazer que transpassa o entendimento. Um grito mudo compreendido apenas por quem entende de silêncios e vazios e das tramas complexas que reúnem os nós da vida. E isso ela entendia.

Também entendia dos cabelos loiros e vermelhos e pretos que se agitavam e se agarravam às mãos para que saíssem do caminho. Entendia do suor que já lhe invadira toda pele, do cheiro de amor que preencheu o ar em substituição aos doces perfumes exalados por quem seduz pelo olhar e pela boca. Entendia do ardor das unhas que marcavam sua pele para lembrá-la de que ainda havia chão sob seus pés e mesa e cama sob suas costas e cruzes sobre seus ombros. Não queria a cruz. Sua alma, tão anterior à cruz que insistia em carregar, pedia pelo voo no infinito e pelo pio da fênix que se consumia tal como ela se consumia enquanto escrevia e enquanto se tocava e enquanto libertava sua boca e pensamentos das cordas daquela contenção censuradora a que se submetera por puro masoquismo. Odiava-se tanto assim? Tinha tamanho amor por si mesma? Respostas não tinha. O que restava era o copo suado, corpo molhado, folha em branco e palco vazio. Restava a coragem?

Tomada pelo impulso, salto alto sobre a mesa, tomou a caneta em suas mãos. No papel, marcou o que já deveria ser marca em sua pele: Angela Zatta, escritora.

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