Mágica

Era um momento doce e quase encantado quando aqueles olhos se cruzaram e se sorriram extasiados pela graça de poder se ver refletir. Um no outro e outro no um de repente eram um só condenado a viver no limiar da dor por continuarem separados, sem poderem, juntos, continuar a sorrir ou chorar as mesmas lágrimas salgadas pelo cansaço. Eram olhares que desejavam o brilho do sol que amanhecia no leste para perfurar a neblina e o frio daquela manhã que insistia em clarear devagar, revelando um dia que não terminaria com o anoitecer. Dia que se estendeu para uma noite de pleno inverno, iluminada pela luz do fogo que ardia no chão. Dia que se seguiu para tantas outras 24 horas nesse relógio que não se cansa de virar. São ponteiros alinhados em busca do melhor lugar para observar aquele olhar aflito que busca reconhecer um rosto em meio a multidão que se avoluma ao seu redor. E que encontra outro olhar apenas para logo se perder e que se perde na distância do amor, na angústia das coisas pequenas. E que quando finalmente encontra seu par, vê-se refletido e sente medo de que as lágrimas voltem a atrapalhar a visão daquele rosto tão lindo, emoldurado e correto como as palavras que saem da boca que se abre em partilha de experiências e planos. Quem sabe se as lágrimas voltarem, finalmente terminem. Era no que fingia acreditar sem saber que sabia que aquilo era impossível. Tão impossível quanto continuar escrevendo sem ver aquele rosto flutuar em sua imaginação antes de pousar em seus braços. Impossível como esquecer o perfume, o calor do abraço ou a dimensão daquele ser tão humano e tão belo e tão encantador. Era um instante quase mágico em que sua mente se enchia de sonhos enquanto a cabeça pousa sobre o travesseiro. Quase sentia nos lábios o ardor daquele beijo que nunca veio. Quase sentia todas as emoções possíveis. Inspirada, quase escrevia. E talvez aquilo fosse o melhor que pudesse fazer.

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2 comentários sobre “Mágica

  1. “Um no outro e outro no um de repente eram um só condenado a viver no limiar da dor por continuarem separados…” Que lindo, como tuas palavras são estranhamente iluminada, rompedoras de vazios, enchendo-nos de possibilidades de viajar, de viajar para além das montanhas, não importando o lugar, os lugares e os territórios do corpo e da terra-chão!

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