Na curva do rio

As palavras a invadiam enquanto o tráfego seguia contínuo em um rio de aço torcido e faróis brilhantes. Carros que passavam sem ver o café preto que agitava para dissolver o açúcar ou seu rosto que súbito se fez confuso ao perceber que já não chovia. Já não chovia há dias. Quantos? Não sabia precisar. Talvez o mesmo número de dias que não penteava o cabelo. Quantos? Também ignorava o porquê daquele dia escurecer antes da hora, cedo demais. Cedo como o galo que cantou para despertá-la por dias seguidos para que deixasse o mundo dos sonhos e voltasse à realidade que lhe escapava pelos dedos da mão sem sujá-los. Suas roupas, tal como sua pele, continuavam limpas de realidade e do mundo acético que cheira a desinfetante e perfume barato e salva o mundo de si mesmo todos os dias.

Ela também estava salva em seu pedestal pequeno demais, equilibrando-se na tentativa de calar seu coração que insistia em derrubá-la. O mesmo coração que ainda doía, embora em menor proporção. Um coração que conheceu a calma de uma paixão sem exigências, em que bastava um vislumbre para que se acalmasse. Um olhar para arrepiá-la. Um toque para despi-la. Um beijo para derrubá-la de joelhos, prostrada em pura admiração. Saberia do poder que tinha? Por acaso conhecia a sensação de estar nua por baixo das roupas, desejando nada mais do que mãos descobrindo sua pele antes de se enroscar em seus cabelos expondo sua garganta para o fio da faca que lhe marcaria a vida com um ponto final?

Soubesse e seria a prova de um sadismo maior que o dela, que ansiava pelas unhas marcando suas costas como prova irrefutável de seu pertencimento. Pertencia a quem? A ela e aos outros. Ao mundo. Toda ela e toda sua geografia ultrapassavam-se na busca pelo sangue que brotaria da pele e de suas veias abertas e entregues ao mundo. Sangue que se espalharia pela terra como o rio corrente do qual emergira para se descobrir mulher e sereia e fada e bruxa e fantasia. Um rio de sangue que invadiu a terra e escorreu por suas pernas deixando as marcas que ninguém veria. Coágulo de rio que se aglutinou em seu útero dando origem à vida.

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2 comentários sobre “Na curva do rio

  1. “Um rio de sangue que invadiu a terra e escorreu por suas pernas deixando as marcas que ninguém veria.” Quantas curva pode possuir um rio, né Angela! Quantas Geografias envolvem as curvas dos rios, passam sobre elas construindo e desconstruindo vidas. Geografias físicas, humanas, culturas – geografias de percepções e representações, como aquarelas lançadas nas paredes da vida! Inspiras, a mim, aos demais, por todos os cantos geográficos!

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