Saia de renda

Olhava pela janela esperando ver o raiar do dia. A noite se alongava sem lua e mesmo com sono não queria dormir. Tampouco queria viver para amanhecer no dia seguinte. Desde que seus olhares se cruzaram naquela noite de verão, vivia no ontem, anterior, passado. Em tudo aquilo que queria ter sido. Sentira seus olhos correrem por suas pernas. Sua saia de renda, as coxas levemente abertas e estavam presos. E esse fora seu erro. Não percebera que ao estimular sua imaginação com o conteúdo guardado entre suas pernas, fora o outro que atou seus pulsos. E reforçou o nó sem usar palavra alguma, com aquele silêncio de palavras engolidas. O que não queria lhe dizer? Que a desejava?

Nunca saberia interpretar aquele silêncio, pois tão mais enigmáticas eram suas palavras. E suas atitudes. A mão que tremeu ao tocá-la. Os lábios que se aproximaram. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Os olhos que a mapearam. O gesto que ficou incompleto para sempre. Sem dúvidas era uma mão habilidosa que saberia guiá-la voluntariamente até a guilhotina. Quantas vezes iria fazê-la sangrar antes de cortar seu pescoço?

Num furacão de perguntas sem respostas, já perdera a terra sob seus pés. Faltava sujeira em seus sapatos. Faltava uma mão percorrendo seu corpo. E se não fossem aquelas mãos, de quem seriam? Que dedos se enfiaram por seus orifícios desde aquele olhar? Os dela? Talvez fosse a hora de virar a mesa. Talvez fosse a hora de voltar ao básico, de voltar para quem tinha sido. Mas como ignorar um capítulo de sua vida e não olhar para trás depois daquele toque trêmulo e inseguro? Melhor seria reinventar-se mais uma vez. Criar uma nova mulher alimentando-se da própria pele, do próprio sangue. Quem sabe, nadando em seu sangue morno poderia perder o medo do líquido, do que escorre para além de seus lábios.

A boca se abriu num sorriso ainda maior. Não precisava de mais um paliativo. Desde que deixara-se invadir, curava seus vícios com machucados. Dolorida, conseguia continuar a andar. Com as costas roxas de tanto ser empurrada contra o volante do carro, os tentáculos das ruas poderiam apertá-la o quanto quisessem. Não doeria. A dor que lhe esperava era muito maior e bateria diretamente em seu orgulho. E o controle da situação lhe escaparia por entre os dedos. Incontrolável, afundaria em sua própria sujeira. Já podia ver seu rosto refletido no brilho dos dentes da dúvida – era vermelho. Afundaria em si mesma para poder se afogar serenamente. Não havia outro caminho para ela. A perspectiva de nenhum crime feito a apavorava. Em sua busca permanente por refúgios, talvez as ruas pudessem tragá-la para dentro da sarjeta com sua cinta-liga rasgada e os cigarros sujos de batom.

Adeus saia de renda.

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