Reticências

Uma sucessão de esperas a construía todos os dias. Esperava o nascer do sol e o despontar da lua a iluminar as noites tão densas que dividiram à luz trêmula da vela, saboreando vinhos de todas as cores. Cores que perseguiam seus passos e invadiam seus sonhos mais alucinados em ondas disformes que envolviam seu corpo e membros impedindo-a de cair em outro abismo. Eram mãos uterinas que a embalavam, conduzindo à cama e ao sono. Saberiam que não queria dormir? Que seu sono era apenas fruto do cansaço, da exaustão emocional que a fazia estender frases e frases até o limite que suportavam os pontos finais? E que lhe a mera ideia do ponto final a apavorava?

Normal seria que aquele amontoado de agoras que se faziam carne em seu corpo amasse as reticências, mesmo que pouco as usasse. Trocava-as por outros caracteres para fingir maior segurança enquanto admirava os três-pontinhos que se enfileiravam em seguidas frases ditas pelos outros. Que coragem tinham em não dizer, não revelar, não escancarar qualquer emoção que já não tivesse sido evidenciada por tantas vezes em repetidos atos, cores e palavras. Ela também era corajosa. Em seu interior viviam leão covarde, homem de lata, espantalho, estrada de tijolos amarelos… viviam as cores de um arco-íris que não ilumina, apenas segura os cabelos do céu como uma tiara celeste. Os mesmos cabelos que caem pelas costas e que anseiam ficar presos entre aquelas mãos quando as bocas se encontrarem para matar sedes tão adiadas de uma água que não cai da chuva; as mesmas bocas que já estão fartas de falar por reticências; as mesmas reticências que se cansaram de pontilhar o pescoço onde descansam cânceres de ostras plásticas; os pontos que invadiam aquela pele fria; pele que se esticava sobre ossos e saboneteiras tão evidentes que pareciam quebrar ao menor descuido. Mas não quebravam e continuavam lá, firmes e duras e brancas e intocadas – por isso, incômodas.

Era um todo íntimo que se abria para revelar o nada que a consumia, tal qual a serpente que se alimenta da própria cauda, ignorando a dor pelo prazer de senti-la. Reconstruía-se com suas não-experiências e com sua espera. Permanecia imóvel na soleira daquela porta entreaberta que lhe permitia admirar a grandiosidade daquele ser tão humano e tão cheio de enigmas. No vão entre a imobilidade e o passo, observava cada ação com atenção de analista. Esquecera-se de que havia refúgio naquele universo tão inseguro que era a vida. Esquecera-se das mãos que se abriam para segurá-la por perto. Lembrou-se das palavras ditas ao ouvido e de suas próprias reticências que igualmente pontilharam linhas de interpretação. Era o suficiente para entrar? Era o suficiente para ficar? Não tinha respostas. Por enquanto, bastava-lhe brindar as certezas das dúvidas.

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2 comentários sobre “Reticências

  1. Vejo e sinto filetes de águas descendo das montanhas, verdes, num horizonte incontestável, onde vejo e sinto “os mesmos cabelos que caem pelas costas e que anseiam ficar presos entre aquelas mãos quando as bocas se encontrarem para matar sedes tão adiadas de uma água que não cai da chuva…” chuva que tudo lava, bocas, corpos, sonhos, insônias… Escreves almas que vagam por todos os cantos, beleza pura, lindo, Beijos!

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