Diálogos submarinos

Querida, vamos dar uma pausa? Vamos nos sentar e ver o pôr do sol sem pensar em mais nada? Venha, me dê a sua mão. Vamos erguer mais essa taça e brindar à nossa incurável ignorância sobre tantas outras coisas. Vamos nos deitar na grama e sentir o mundo girar enquanto ouvimos o vento que balança as folhas das árvores. Quero me deitar sobre suas coxas e fechar os olhos para me deixar voar sentindo seu perfume leve. Quero adormecer ouvindo seu riso e o timbre tão suave da sua voz. Quero a maciez das suas mãos tocando as minhas e me conduzindo, sempre à frente.

Mas fico atrás. Continuo atrás desse escudo protetor que é a sua presença, pois não consigo me libertar das correntes que seguem atadas aos meus pulsos. São outras mãos que seguram meus pulsos, impedindo que me liberte. E me arrastam, me afastam, me calam. Se antes achava que a dor maior era voltar a escrever, descubro que é o silêncio que mais me dói. Uma mudez que ecoa na alma e ressoa na miudeza das palavras ditas com toda classe e concordância características do papel da imprensa.

A ausência de falas, de palavras, é uma tortura que não encontra fuga nas entrelinhas as quais me agarro na vã tentativa de manter a cabeça fora do balde de água gelada em que meu corpo foi jogado enquanto as mãos insistem em me puxar para o fundo.

Faz frio na água que me assusta. Escurece enquanto as horas dançam no relógio e me esqueço dos fatos e das mágoas. Já não se agitam as correntes atadas aos meus pulsos e a âncora presa aos meus pés encontrou abrigo no fundo do pequeno oceano em que tento flutuar. Os peixes não me estranham – já viram coisas piores. Acaricio o Kraken que se aproxima e que poderia me libertar ou matar com um único movimento. Mas não o faz. Toda vida marinha e terrestre parece compreender que o desejo do mundo não é a minha liberdade – esse desejo é meu. E por ser tão meu, só pode ser alcançado por mim. De nada vale escrever sobre dançarinas que se elevam sobre as mesas de toalha vermelha enquanto não subir na mesa. Escrever não lhe traria os momentos de volta, ou o sabor daquele beijo guardado nos lábios. Emergir seria ultrapassar linhas e entrelinhas, subir nas mesas, chutar os baldes, chupar os gelos que correm pelo chão e deixar de ver a passagem das horas como evidências do fim. Emergir também seria saltar da mesa para se enroscar naqueles braços de abraço tão quente e ver ir embora o frio enquanto as estrelas piscam para ver melhor a cena que se desenrola na superfície.

Querida, vamos dar uma pausa nesse cotidiano tão amolecido de experiências? Tim Tim. Saúde!

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