Sobre escadas e voos

Cães raivosos latem para a aura imaculada que a cerca. Pouco importa a raiva que lhes escorre em saliva viscosa pela boca, molhando seus pelos e pingando no chão. Qualquer semelhança com o líquido que escorre por seus pequenos e grandes lábios seria mera coincidência? Não tinha, também, seus momentos de cão que late e morde incapaz de resistir à agonia que borbulha no peito? Seguia aproveitando seu momento lispectoriano enquanto tropeçava com seus passos tímidos pelas ruas que serpenteavam pelos morros daquela cidade que parecia se erguer para se aproximar de Deus.

Mas que Deus era aquele que não prolongou o instante tão calmo da carícia que se estendeu para alcançar seu rosto despido de qualquer maquiagem? Teria também olhado e desejado seus lábios coloridos de vermelho para marcar a pele em que encostasse? Um toque que guardava em si um dicionário de palavras que se fossem ditas poderiam não ser aceitas. Ou então seriam e ela estava apenas perdendo tempo pintando a boca e as pálpebras em frente ao espelho. E se fosse verdade? E se Deus, no auge de sua magnificência, também estendesse suas mãos para lhe fazer carinho e acalmasse o cão que latia em seu interior?

Aí sim poderia entrar por aquela porta e vencer o entreaberto em que insistia em continuar. Era cômodo ficar ali, naquele lugar onde não havia vez para deuses ou demônios, luz ou escuridão. No crepúsculo da passagem que atordoava seus pensamentos todas as vezes em que inspirava e podia sentir aquele perfume tão único. Um cheiro que a transportava diretamente para o alto da escada, onde chegava para aliviar o som do salto alto batendo no chão. Do alto de uma escada que parecia ser o máximo de altura que conseguiria chegar com seus pés, pois dali seria possível alçar voo pela janela aberta. Pés fincados no chão e teria o impulso necessário sabendo que sempre haveria uma escada para subir caso caísse de cara no chão e acordasse num sobressalto. (Sempre?)

Deitada em sua cama, companheira de tantas e tantas horas, permitia-se ainda fechar os olhos e recomeçar seu voo, sobrevoando casas, montanhas, rios, araucárias e tantas vidas que se desenrolavam naquela terra manchada. Eram pessoas como ela que se levantavam do chão todas as manhãs, suportando cabeça, corpo e membros sobre seus sapatos de salto que faziam questão de lembrá-la de que poderia cair. Saberiam que desejava a queda para sujar suas roupas e ralar seus joelhos? Para ver brotar e florescer sangue em sua pele? Saberiam que desejava cair naqueles braços doces? Que sonhava com aquele abraço forte amparando sua queda forte o suficiente para que caíssem e rolassem sobre o asfalto incapazes de conter o riso? E sobre o calor da rua sentiria a mandíbula doer por tantos risos e sorrisos. E sentiria o corpo todo arder quando tivesse suas palavras emudecidas pela língua que lhe ultrapassaria os lábios num beijo esperado, sentido e despido de toda e qualquer violência que desejara anteriormente.

Passado o antes, ficaria apenas a sensação de medo superado, morto e enterrado junto com todos os outros demônios que conseguiria empurrar de volta para seu inferno particular – a área VIP do seu ser, reservada aos seus mais ignorados prazeres. Uma orgia louca que partia de seu útero trazido do interior da terra com uma porção de solo do purgatório e que se estendia para suas pernas abertas, sua barriga que já não crescia, seus seios que se firmavam como as torres da igreja apontando para o paraíso e suas mãos que vagavam a esmo por sua pele fria. Fria como a outra pele.

Mãos que eram livres e que seguravam as chaves de sua própria prisão. Todos os demônios presos e ela estava livre em seu vestido branco enfeitado com penas coloridas. Livre em seu cabelo vermelho voando com o vento daquele dia que insistia em se alongar sem chegar ao fim. Livre em suas palavras que voavam para o papel e coloriam linhas e traziam cores e formas e imagens aos corações que se permitiam inspirar. Inspirações que lhe infligiam uma dor extrema, antes desconhecida. Eram medos que a invadiam a medida que dialogava consigo mesma e com sua percepção do mundo e das coisas através da escrita. Doía menos que a pena arranhando o papel, menos que a terra massacrada para receber os trilhos em sua superfície, menos que os rios daquela paisagem, relegados a receber toda sujeira dela e dos outros. Doía menos do que perceber que as palavras lhe faltavam e que já não sorria enquanto os cães latiam anunciando sua presença em frente ao portão.

Olhos no céu, percebeu que anoitecia. Era crepúsculo e a porta estava entreaberta. Passo para dentro e as chaves viraram. Mais uma vez, anoiteceria em paz no Contestado.

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