Ponto final

Hoje escrevi com uma caneta vermelha. Vermelha como meus cabelos que se alinham presos pelo calor que me faz amolecerem os braços e pernas. Vermelha como o batom que me cobre os lábios e como as rosas que devem estar floridas nesta época, estourando como feridas abertas naquela terra que se espalha por um território tão grande que já não cabe em meu peito. Já se estendeu para meu pescoço que não guarda marcas da pedra, do fio da lâmina ou das lágrimas de sangue que choraram uma dor também roubada. Um sangue que também corre nas minhas veias em gritos frenéticos, buscando um canal de escapar e que encontra através das minhas mãos. Serpenteiam palavras num rio de sangue e tinta vermelha sobre o papel.

São vozes. São gritos. Reflexões tão íntimas que me arrepiam a pele e fazem lembrar das tantas vezes que se calaram forçadamente por minha alma que deixava falar apenas a voz da razão. Mas não existe razão em nada que é real. Não é racional ou civilizado encontrar resgatado algo tão simples e bonito quanto um olhar que se acende em fúria, despido de vergonha. São olhos que lutam em muitas frentes e contra seus próprios demônios e que sopraram para mim a fogueira da vida que se extinguia e das brasas retiraram o véu da ignorância. Num segundo sopro, as brasas recuperaram seu rubor clamando pelo fogo que viria a consumi-las. Chiavam as chamas enquanto eu, fogueira em brasa, ardia por seu sorriso disfarçado nos cantos dos lábios antes de se transformar em uma gargalhada que faz tremerem as águas do rio. Lambiam as labaredas no tintilar das taças que se erguiam em brindes e mais brindes por uma vida que passara a ser tão linda e tão gostosa de ser vivida e sentida. Subia a fumaça em conjunto com as fumaças que fazíamos e que não eram nada senão a evidência de um fogo que não se apaga e continua a queimar e arder e estalar e escurecer o chão onde está.

Mas não queima minhas asas e eu, que já parti do chão como ave assustada, sinto o vento cortar minhas penas e vejo a cidade diminuir conforme ganho altura. Mesmo no céu, não perdia a terra de vista. Precisava dela. Precisava daquele solo de terra escura de sangue chorado escurecendo suas pelas e pelos e escamas e pele e cabelos. Mais uma vez, precisava rolar na grama úmida depois da chuva de verão que se precipita do lado de fora para que não esquecesse que também era terra. Aquela terra. Fogo e fumaça, cinza e brasa, línguas e salivas, flores e asfalto, noite e dia – tudo que havia para ser e era e estava em cena repetidas vezes como o ponto final que insistia em não chegar para não calar o que ainda precisada ser dito.

Não calava as palavras que se acotovelam para pintar o papel de vermelho. Nem as lembranças que borbulham em minha mente para retirar dela a sanidade e deixar aflorar a selvageria que teria coragem de romper as amarras e saltar sobre cercas e muros e portões, correr por ruas, subir e descer os morros para enfim chegar ao destino e respirar fundo, tomando fôlego antes de se lançar nos braços que me esperam. Braços e um corpo e alma que me esperam descansar a caneta e seguir de mãos dadas pelo mundo que se descortina em nossa frente. Mãos dadas e almas unidas, sem ponto final

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Curvas e brilhos

Há um brilho diferente nas águas que correm rumo à curva do rio. Brilham como também brilhava minha pele suada, pontilhada por gotículas de suor que se acumularam em minhas saboneteiras e que também pulsavam acompanhando meu coração que batia acelerado pelas lembranças que se avolumavam em minha mente e transportavam para as madrugadas geladas, manhãs frias, tardes ensolaradas, crepúsculos lindos e noites chuvosas ou estreladas. Era a lua que tomava seu lugar no topo do mundo para iluminar a cena que acontecia no interior daquela janela ou perante o fogo que se levantava do chão para aquecer corpos enrijecidos pelo frio. Um frio que se dissipou perante o fogo que também subia do pavio da vela e tremulava no escuro na esperança de iluminar algo que não se encerasse no brinde com vinho tinto – sangue que brotou da pele da fruta para cair na taça e brincar de colorir meus lábios sedentos pela outra boca. Fio de sangue que corre da uva e mancha meu pescoço exposto, arrepiado pela sua respiração e por suas mãos firmes em meus cabelos. Não toca meus ombros que se deitam para inflar o peito onde moram todos os sonhos do mundo. Eu que sou um coração em chamas, ardência pura num corpo que não quebra, mas que já não se dobra.

Escorre o vinho pela minha boca, tão próxima e tão afastada da sua. Bocas que não se encontram, lábios que não se tocam, mãos que se afastam… mas que se ousarem se aproximar da roda viva de sentimentos a que estão submetidos serão modificados e passarão a ser bocas incapazes de se fechar na tentativa de conter tantas palavras e frases e rezas e gritos e gemidos que até então não encontraram vazão. Serão lábios úmidos e vermelhos que perdem sua carga de maquiagem porque nada além do natural é necessário quando a vela se acende e faz brilhar a pele iluminada pelo amor que aflora de cada célula quando os dedos se entrelaçam, os olhos se levantam e se aprofundam antes de encontrar abrigo nas pálpebras e deixar aflorar os sentidos encontrados no toque das línguas.

Falam, águas e palavras na correnteza da curva. Falam o que minha pele não disse quando temeu ao toque e se arrepiou por saber que se tratava de um caminho sem volta. Mas não estou presa. O rio pode me arrastar por quilômetros e não será capaz de retirar as impressões tão nítidas que guardo em meu corpo. Onde estava o rio quando deitamos na grama molhada? Onde estava a vela quando as lágrimas afogaram suas retinas? Onde estava o fogo para queimar minhas roupas de tons neutros, escolhidas para marcar as curvas e a paisagem desse corpo que é todo um território para minhas percepções? E onde estavam os olhos que esquadrinharam meu corpo seguidas vezes em um lampejo de desejo? E o desejo, e a verdade, e a carícia, onde estavam?

Silêncio. Corre o rio passando a curva. Segue seu rumo sem saber que carrega consigo tamanha carga de sentimentos. Viajam as águas enquanto eu fico. E quando fico, permaneço. Continuo submersa para ver como nascem as bolhas de ar no fundo lamacento onde me deito e respiro para compreender os mistérios do seu universo. Um mundo que também é meu. É esse rio que acompanha as curvas da estrada com suas marcas de fogo e sangue. É o brilho suavizado pela lua que reflete nos meus olhos, num sorriso contido, num toque inseguro e numa palavra trêmula. É a lua que ilumina sua pele e minhas reticências – somos nós.

A rosa do Contestado

Gente, esse é um trecho d’A rosa do Contestado. Pura ficção ambientada nessa minha terra. Esse trecho, inspirado nas lindas paisagens de Matos Costa.

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Distante dos pinheiros, Maria ouvia o coachar dos sapos quebrando o silêncio. Silencioso túmulo aquele sobre o qual seus pés pisavam. Outro túmulo sem marco ou cruz. Outro cálice para brindar com os músicos anos mais tarde. Um brinde em anos de chumbo que ela não veria com seus olhos inundados de pôr do sol. Brinde de uma taça que ela não levantaria em sua existência diária, diária, diária, roubada pelas amarras do cotidiano arfante que a oprimia como uma casa cujo teto é baixo demais. Dentro daquela vida, era um amontoado de si mesma que crescia comprimindo telhado e paredes, sem janela por onde seus braços pudessem escapar. E ela via os dias se seguirem, nascendo e morrendo sem levá-la consigo. E via as pessoas indo e vindo sem que pudesse acompanhá-las. E via o trem chegando e saindo da estação sem perceber sobre o que passava – sem ver que terminava de esmagar os restos do corpo de Eva. E ouvia músicas que escapavam dos instrumentos e via passos de dança que se ensaiavam em uma métrica perfeita. E via agulhas e linhas se enfiando nos bastidores sem erro. E via cabelos penteados e presos, contidos em sua natureza. E atormentava-se com tantas certezas que se acumulavam numa vida metrificada e petrificada em sua própria natureza e por isso vazia. Era uma realidade arfante e intolerável aquela – e Maria precisava escapar.

Fugir, era o que queria. Abandonar aquela terra que de tanto lhe pertencer já não era mais sua. Não reconhecia

Também não viu o Padre José se aproximar e tocar-lhe o ombro. Assustou-se ao notar um brilho diferente em seu olhar. Acompanhada, estava sozinha. Deixara de pertencer ao mundo para estar ali. Carne e osso em uma explosão de medo daquele olhar em que batalhavam cruzes e espadas – ela sem espada, sem santo protetor, nua perante um mundo que não lhe compreendia. Ela que, sentada no balanço anos antes, encontrou lugar seguro quando seus pés se desprenderam do chão. Firme em seu voo baixo e mesmo presa nas garras da vida, Maria foi quase livre. Um sentimento novo se instalou em seu peito, renovando-se todas as vezes que sentia o vento fazer voar sua cabeleira escura. Era a sensação do equilíbrio. Abismo infinito que abria sua boca, mostrando-lhe os dentes na ânsia de devorá-la. Mas ela era indomável. Todas as bocas do mundo poderiam mordê-la, arrancar-lhe pedaços de pele e carne, roer-lhe os ossos e continuaria viva porque precisava viver. Viver era seu sacrifício para a existência. Viver era sua forma de se deitar no altar esperando pelo punhal que lhe abriria o peito. Era sua forma de deitar o pescoço na pedra fria na esperança de que sua cabeça terminasse perto do corpo morto. O Padre não entenderia. Nem ninguém.

Voou o vestido branco de Maria entre o mato. Foi-se o vestido e a cabeleira que flutuava enquanto o vento daquele fim de inverno lhe avermelhava as bochechas. Vencido pela cruz, o Padre deixou que Maria voasse enquanto se cobria pela vergonha. Para quem confessaria sua paixão por Faustina? Deus lhe perdoaria ao perceber que se apegara às filhas de Feliciano? E que na ausência da primeira, a segunda lhe poderia servir? Mas era pecado. E mais que isso, era errado. Erradas também seriam as tantas coisas que ensinara por anos a fio? E se não fosse verdade e seu destino fosse o ardor do inferno? E se no inferno estivesse sozinho como esteve a vida toda. Rodeado de gente, também o Padre perdia as forças para manter as aparências. Odiava a solidão, maldizia os reclusos. O homem de Deus não suportava a voz de seus próprios demônios e por isso jamais poderia entender o amor que Maria tinha pela voz que ouvia. Talvez fosse um anjo que lhe sussurrava certezas no ouvido. Um anjo invisível aos crentes, excomungado pelo diabo republicano.

Encontrou Maria caída próximo ao poço e parou para olhá-la. Já não era mais a criança que ele batizou. Era uma mulher desmaiada entre as araucárias, cujos cabelos se grudaram no suor acumulado no rosto e pescoço. Fios pretos denunciando a brancura de uma pele clareada à força. Cascatas onduladas que mancharam uma linhagem confusa, misturada para ser única. Feliciano e Lúcia não perceberam como a moça crescera. Talvez não tivessem reparado na cabeleira negra que cascateava costas abaixo, ou nas saboneteiras que se afundavam sustentando o pescoço esguio. Não viram os mamilos endurecidos pelo frio pontilhar a camisola branca e tampouco notaram as coxas que se torneavam seguindo a tradição italiana dos avós. Acaso não perceberam a virgindade incômoda da moça que jamais encontraria marido, mesmo permanecendo pura? Quem teria coragem de deflorar a rosa virgem que era Maria?

Seus dedos trêmulos tocaram o rosto da mulher adormecida, exausta pelo excesso de dentes que a feriam. Por baixo da pele, um olhar atento veria as feras que tramavam armadilhas naquela complexidade mariana. Eram vermes azuis que lhe preenchiam as veias. Vermes em movimento. Todos eles. Eles todos tomados de azul, embriagados pela mente de Maria. Azul de mar, azul de céu, azul da poesia que o Padre escreveria em seu diário referindo-se ao manto da Virgem Maria, mesmo que a virgem ou a Maria de seu desejo não fossem a mãe de Cristo.

Tomou-a nos braços. Pesavam a mulher e sua consciência.