A rosa do Contestado

Gente, esse é um trecho d’A rosa do Contestado. Pura ficção ambientada nessa minha terra. Esse trecho, inspirado nas lindas paisagens de Matos Costa.

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Distante dos pinheiros, Maria ouvia o coachar dos sapos quebrando o silêncio. Silencioso túmulo aquele sobre o qual seus pés pisavam. Outro túmulo sem marco ou cruz. Outro cálice para brindar com os músicos anos mais tarde. Um brinde em anos de chumbo que ela não veria com seus olhos inundados de pôr do sol. Brinde de uma taça que ela não levantaria em sua existência diária, diária, diária, roubada pelas amarras do cotidiano arfante que a oprimia como uma casa cujo teto é baixo demais. Dentro daquela vida, era um amontoado de si mesma que crescia comprimindo telhado e paredes, sem janela por onde seus braços pudessem escapar. E ela via os dias se seguirem, nascendo e morrendo sem levá-la consigo. E via as pessoas indo e vindo sem que pudesse acompanhá-las. E via o trem chegando e saindo da estação sem perceber sobre o que passava – sem ver que terminava de esmagar os restos do corpo de Eva. E ouvia músicas que escapavam dos instrumentos e via passos de dança que se ensaiavam em uma métrica perfeita. E via agulhas e linhas se enfiando nos bastidores sem erro. E via cabelos penteados e presos, contidos em sua natureza. E atormentava-se com tantas certezas que se acumulavam numa vida metrificada e petrificada em sua própria natureza e por isso vazia. Era uma realidade arfante e intolerável aquela – e Maria precisava escapar.

Fugir, era o que queria. Abandonar aquela terra que de tanto lhe pertencer já não era mais sua. Não reconhecia

Também não viu o Padre José se aproximar e tocar-lhe o ombro. Assustou-se ao notar um brilho diferente em seu olhar. Acompanhada, estava sozinha. Deixara de pertencer ao mundo para estar ali. Carne e osso em uma explosão de medo daquele olhar em que batalhavam cruzes e espadas – ela sem espada, sem santo protetor, nua perante um mundo que não lhe compreendia. Ela que, sentada no balanço anos antes, encontrou lugar seguro quando seus pés se desprenderam do chão. Firme em seu voo baixo e mesmo presa nas garras da vida, Maria foi quase livre. Um sentimento novo se instalou em seu peito, renovando-se todas as vezes que sentia o vento fazer voar sua cabeleira escura. Era a sensação do equilíbrio. Abismo infinito que abria sua boca, mostrando-lhe os dentes na ânsia de devorá-la. Mas ela era indomável. Todas as bocas do mundo poderiam mordê-la, arrancar-lhe pedaços de pele e carne, roer-lhe os ossos e continuaria viva porque precisava viver. Viver era seu sacrifício para a existência. Viver era sua forma de se deitar no altar esperando pelo punhal que lhe abriria o peito. Era sua forma de deitar o pescoço na pedra fria na esperança de que sua cabeça terminasse perto do corpo morto. O Padre não entenderia. Nem ninguém.

Voou o vestido branco de Maria entre o mato. Foi-se o vestido e a cabeleira que flutuava enquanto o vento daquele fim de inverno lhe avermelhava as bochechas. Vencido pela cruz, o Padre deixou que Maria voasse enquanto se cobria pela vergonha. Para quem confessaria sua paixão por Faustina? Deus lhe perdoaria ao perceber que se apegara às filhas de Feliciano? E que na ausência da primeira, a segunda lhe poderia servir? Mas era pecado. E mais que isso, era errado. Erradas também seriam as tantas coisas que ensinara por anos a fio? E se não fosse verdade e seu destino fosse o ardor do inferno? E se no inferno estivesse sozinho como esteve a vida toda. Rodeado de gente, também o Padre perdia as forças para manter as aparências. Odiava a solidão, maldizia os reclusos. O homem de Deus não suportava a voz de seus próprios demônios e por isso jamais poderia entender o amor que Maria tinha pela voz que ouvia. Talvez fosse um anjo que lhe sussurrava certezas no ouvido. Um anjo invisível aos crentes, excomungado pelo diabo republicano.

Encontrou Maria caída próximo ao poço e parou para olhá-la. Já não era mais a criança que ele batizou. Era uma mulher desmaiada entre as araucárias, cujos cabelos se grudaram no suor acumulado no rosto e pescoço. Fios pretos denunciando a brancura de uma pele clareada à força. Cascatas onduladas que mancharam uma linhagem confusa, misturada para ser única. Feliciano e Lúcia não perceberam como a moça crescera. Talvez não tivessem reparado na cabeleira negra que cascateava costas abaixo, ou nas saboneteiras que se afundavam sustentando o pescoço esguio. Não viram os mamilos endurecidos pelo frio pontilhar a camisola branca e tampouco notaram as coxas que se torneavam seguindo a tradição italiana dos avós. Acaso não perceberam a virgindade incômoda da moça que jamais encontraria marido, mesmo permanecendo pura? Quem teria coragem de deflorar a rosa virgem que era Maria?

Seus dedos trêmulos tocaram o rosto da mulher adormecida, exausta pelo excesso de dentes que a feriam. Por baixo da pele, um olhar atento veria as feras que tramavam armadilhas naquela complexidade mariana. Eram vermes azuis que lhe preenchiam as veias. Vermes em movimento. Todos eles. Eles todos tomados de azul, embriagados pela mente de Maria. Azul de mar, azul de céu, azul da poesia que o Padre escreveria em seu diário referindo-se ao manto da Virgem Maria, mesmo que a virgem ou a Maria de seu desejo não fossem a mãe de Cristo.

Tomou-a nos braços. Pesavam a mulher e sua consciência.

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