Curvas e brilhos

Há um brilho diferente nas águas que correm rumo à curva do rio. Brilham como também brilhava minha pele suada, pontilhada por gotículas de suor que se acumularam em minhas saboneteiras e que também pulsavam acompanhando meu coração que batia acelerado pelas lembranças que se avolumavam em minha mente e transportavam para as madrugadas geladas, manhãs frias, tardes ensolaradas, crepúsculos lindos e noites chuvosas ou estreladas. Era a lua que tomava seu lugar no topo do mundo para iluminar a cena que acontecia no interior daquela janela ou perante o fogo que se levantava do chão para aquecer corpos enrijecidos pelo frio. Um frio que se dissipou perante o fogo que também subia do pavio da vela e tremulava no escuro na esperança de iluminar algo que não se encerasse no brinde com vinho tinto – sangue que brotou da pele da fruta para cair na taça e brincar de colorir meus lábios sedentos pela outra boca. Fio de sangue que corre da uva e mancha meu pescoço exposto, arrepiado pela sua respiração e por suas mãos firmes em meus cabelos. Não toca meus ombros que se deitam para inflar o peito onde moram todos os sonhos do mundo. Eu que sou um coração em chamas, ardência pura num corpo que não quebra, mas que já não se dobra.

Escorre o vinho pela minha boca, tão próxima e tão afastada da sua. Bocas que não se encontram, lábios que não se tocam, mãos que se afastam… mas que se ousarem se aproximar da roda viva de sentimentos a que estão submetidos serão modificados e passarão a ser bocas incapazes de se fechar na tentativa de conter tantas palavras e frases e rezas e gritos e gemidos que até então não encontraram vazão. Serão lábios úmidos e vermelhos que perdem sua carga de maquiagem porque nada além do natural é necessário quando a vela se acende e faz brilhar a pele iluminada pelo amor que aflora de cada célula quando os dedos se entrelaçam, os olhos se levantam e se aprofundam antes de encontrar abrigo nas pálpebras e deixar aflorar os sentidos encontrados no toque das línguas.

Falam, águas e palavras na correnteza da curva. Falam o que minha pele não disse quando temeu ao toque e se arrepiou por saber que se tratava de um caminho sem volta. Mas não estou presa. O rio pode me arrastar por quilômetros e não será capaz de retirar as impressões tão nítidas que guardo em meu corpo. Onde estava o rio quando deitamos na grama molhada? Onde estava a vela quando as lágrimas afogaram suas retinas? Onde estava o fogo para queimar minhas roupas de tons neutros, escolhidas para marcar as curvas e a paisagem desse corpo que é todo um território para minhas percepções? E onde estavam os olhos que esquadrinharam meu corpo seguidas vezes em um lampejo de desejo? E o desejo, e a verdade, e a carícia, onde estavam?

Silêncio. Corre o rio passando a curva. Segue seu rumo sem saber que carrega consigo tamanha carga de sentimentos. Viajam as águas enquanto eu fico. E quando fico, permaneço. Continuo submersa para ver como nascem as bolhas de ar no fundo lamacento onde me deito e respiro para compreender os mistérios do seu universo. Um mundo que também é meu. É esse rio que acompanha as curvas da estrada com suas marcas de fogo e sangue. É o brilho suavizado pela lua que reflete nos meus olhos, num sorriso contido, num toque inseguro e numa palavra trêmula. É a lua que ilumina sua pele e minhas reticências – somos nós.

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