Dramas e comédias

No princípio, era o escuro. Silêncio. Você pode imaginar que eu perdi o equilíbrio na corda da vida e caí em um abismo escuro e fundo sem a possibilidade de me segurar ou de alcançar novamente a superfície. Você imagina que há vermes brancos lá no fundo, onde a luz e o som não alcançam. Você imagina que perdi toda minha potência e que cabe a você a responsabilidade de me salvar. Você é que tem o poder. Você é perfeito. Você enxerga. Você caminha com suas duas pernas. Você escuta e fala. Você zomba.

Como saberia que as quedas fortalecem se nunca caiu? E se daí do alto permanece privado do poder que é olhar e enxergar e se ver refletir no outro que não é como você?

Você não viu suas pernas imóveis por não responderem aos seus comandos. Não viu a luz do sol deixar de nascer diante dos seus olhos. Não viu o som dar espaço ao silêncio. Seu padrão é uterino, escuro, aquático e profundo. Seu padrão vem das suas entranhas, enraizado no imaginário. E no seu padrão eu não me encaixo e caio. E no meu padrão eu me encaixo e levanto para assumir quem sou, de onde vim, para onde vou e o que eu crio.

Eu e eles – nós criamos. Pintamos, dançamos, falamos, cantamos, escrevemos, dormimos, interpretamos, respiramos, sentimos. Nós pulamos, comunicamos, sufocamos, calamos, choramos, nascemos, vivemos, rimos, aprendemos, estudamos, gozamos, aplaudimos e morremos. A nossa vida se equipara, mas jamais se iguala. Afinal, a sua também não se iguala a dos seus iguais. Nós – eu e nós e você – todos filhos do útero da terra. Frutas diferentes da árvore da vida. Gostos diferentes na boca da existência. Nós, dramas e comédias.

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