Coração Contestado

Era lá e era também aqui. Lá na terra que era coberta de mato e virou roça e depois descampado pisoteado por trabalhadores que fixavam trilho e sangue. Lá onde o trilho se espalha como veias e o sangue escorre para dentro da terra que me compôs. Eu que sou terra que hoje volta a se cobrir de mato e se enrola em meus pés parecendo querer frear meu avanço, ignorando que preciso seguir no caminho pedregoso que margeia os trilhos para chegar ao local apontado pelo Santo.

E era pra lá que eu devia ir para conseguir chegar aqui. Aqui dentro onde meu coração se comprime ao perceber a linha reta da ferrovia que já não funciona, mas denuncia a distância. Muitas distâncias que se debruçam sobre as bordas dos muros erguidos ano após ano, pois não podem caber em simplificações. Porque elas escorrem como o sangue que já não cabia sobre a terra e precisou se enterrar e se levantam como o fogo que já não cabia sobre os corpos e precisou invadir as casas e se avolumam como a avareza que precisa consumir tanto quanto for imaginável existir no mundo. Nesse mundo que é tão difícil de compreender enquanto gira e que não para nunca de girar.

Gira também meu corpo em torno do seu próprio eixo enquanto passo sobre os trilhos. Há música em meus ouvidos e tropeços em meus passos. Caio sobre as pedras para manchar minha pele com o roxo da pancada do meu peso contra o ferro que me margeia. Eu que não passo de um monte de carne crispada sobre as tábuas que resistem à ação do tempo e do esquecimento. Eu que sou um saco de pele que cobre ossos sem mágoas do mundo. Eu que continuo com o sangue cuidadosamente abrigado na parte de dentro e não precisei vê-lo fugir de mim para dar vida e aquecer as veias dos trilhos enquanto a vida morria nas margens da ferrovia. Eu, que vejo o mundo de baixo, entre o rio e a rua, me levanto e sigo.

Sigo o sangue e as veias. Caminhos que levam ao coração.

Sobre as noites que começam sem por do sol

Era noite

E era dia

Era sorte

E a pele era fria

Eram trêmulos dedos

Sob a lua que brilha

Era quente o sangue

Que na pele escorria

Era a prece que se erguia

Para as nuvens daquele céu

Quando ainda era dia

Eram doces os lábios

Que se abriam em sorriso

Quando ainda era dia

Suculentos os frutos

Que amadureciam no tempo

Quando ainda era dia

Era cheirosa a panela

Que fervia

Quando ainda era dia

Era dolorosa a fome

Que ardia

Quando a noite era dia

Era triste a melodia

Da viola em cantoria

Quando a noite era dia

Era solitária a lágrima

Que caia

Quando a noite era dia

Era doloroso o furo

Da bala que se ouvia

Quando já não era mais dia

Ensurdecedora a bomba

Que a tudo destruía

Quando já não era mais dia

Era quente o fogo

Que queimava e ardia

Quando já não era mais dia

Era a fria a noite

Solitária companhia

Foi-se a fé, o irmão e o sangue

Era noite

E não era dia.