Poesia perdida

É quando o mundo silencia que minha alma desperta. Vaga por entre as curvas das montanhas que cercam esse território cuja conceituação me foge e já não me interessa. Também não interessam as nuvens de chuva que se condensam enegrecendo o céu com a possibilidade de me fazer precisar acender a luz mais cedo. No chão, onde a pouca luminosidade alcança, há um buraco de vida que vive para se afogar na enxurrada que não tarda a começar.

Nas primeiras gotas, já não ouço mais o barulho ensurdecedor dos trovões que fazem tremer as paredes. Divago com os pés sem encostar o chão em busca da poesia. Coloco meus óculos, pois já não procuro a poesia inteira – parte dela está em mim e apenas uma linha se perdeu. Aonde?

Teria escapado pelo furo do fundo da minha bolsa? Ou caído no chão sem que eu notasse enquanto tentava alcançar o batom? Ou escorregou pelas bordas do meu corpo quando me deitei sobre os lençóis para mancha-los com o sangue de um útero que não fecha e não cessa de pingar. Ficaram, as minhas palavras, grudadas num amontoado de placenta no meu rastro? Ou voavam com o canto dos passarinhos que se despedem do verão nesse março que mal começou? Ou fizeram girar a Terra em seu eixo pra que eu me finalmente me perdesse de mim na rotação?

Mas encontro um ponto. E o ponto desaparece tão súbito quanto surgiu. E onde ele estava já não há mais risco preto sobre folha branca. Há branco puríssimo que reflete a luz do raio da tormenta que açoita as janelas. Há branco e por isso há nada. E ao mesmo tempo tudo. Há um indefinido, um vestígio mudo que me empurra na busca das palavras que o complementam.  Há a chuva que ameniza gradualmente para desaparecer na manhã seguinte. Há a vida afogada no buraco do chão. Há poesia perdida na pele.

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