Sobre Araucárias e Esperanças

Escura e fria era a floresta de araucárias com sua imensidão de tons de verde e preto. Lá, onde pipocavam sementes marrons, avermelhadas e amarelas pelo chão. Pinhões caídos. Pinhas partidas e os pés do caboclo revirando a terra em busca de alimento para sua família que emagrece. Para a criança que se recupera de uma doença com chá de vassourinha. Para a mulher que cozinha no fogão à lenha enquanto espera a hora de partir. Jamais conheceriam o tardar da hora, pois para aquelas gentes sempre foi tarde demais. Sempre, desde que decidiram romper os grilhões que os prendiam e libertar o grito que os sufocava, impedindo seu acesso à terra, à vida, à dignidade e à esperança.

Eram gente diversa. Branca, parda, negra. Gente colorida como a floresta. Filhos de uma floresta que os forçou à adaptação para permitir que continuassem em seu útero, gestados, protegidos e alimentados antes de serem violados como a floresta. Nela, entrou o trem carregado de dinheiro para levar embora sua alma. Na carne da floresta, entraram máquinas para derrubar a imponência e a exuberância. Nua a floresta não existe. Nem eles existiam sem a floresta. Suas vidas foram derrubadas com as madeiras de lei, cuja única lei que conheciam era a do seguir infinito dos dias em seu ciclo natural de vida, morte e vida. Na carne deles, plantaram-se as balas.

E hoje, carnes e peles se cobrem de pinnus. Alienígena. Alheio. Incompreensivelmente sem história e em luta – vencendo a luta pela terra.

Ainda lutam as araucárias, a floresta e os caboclos. E eu que ainda cheiro à poeira do caminho. E nós, que ainda vemos seus rastros no caminho da (Boa) Esperança.

Boas esperanças

Paraíso entre as montanhas. Por todo lado existem morros altos e floresta criados como obra divina para proteger quem precisa de proteção. E protegeu enquanto não cercou.
Impossível saber como era. Mas as palavras do Monge me sussurram encostas repletas de casas e um caminho em procissão até o cemitério para velar mais uma criança que teve a alegria de não morrer matado. Com a graça de morrer sem ser queimado no caminho da esperança, a criança (muitas delas) receberam caixões decorados com madeira talhada.
E a última morada alimentou a alma. Alma que sentiu fome e medo com o cerco das fardas republicanas. Alma que sentiu o calor do fogo que queimou seus irmãos e irmãs. Fogo a fogo, a morada se desfaz. Túmulos queimam. Túmulos respiram. Vozes ecoam.

Tintas secas

Era noite, mas também era dia. No coração, um crepúsculo apaixonado pela aurora que pinta os dias e as manhãs tão quentes do verão que já se foi. Faz tempo que é dia, embora algumas vezes o sol se põe. Aquela era uma das velhas noites frias em que o café esfriava na xícara e o cigarro se consumia sozinho no cinzeiro. O gelo transbordou da forma na geladeira como as lágrimas que pularam de seus olhos para congelar o coração que já não colore, pois as tintas secaram. Endurecidas como suas mãos que desde muito não tocavam papel ou caneta sem entender o porquê, até quando ou a que preço.
Sabia o preço. Ele era sua própria dor. A dor que consumia seu peito imóvel, anestesiado pela claridade excessiva dos dias. Feliz demais, por tantas vezes chorou de tristeza. E agora já estava seca. Secaram-lhe as lágrimas e continuou o gozo. Gozo de um prazer que já não tinha. E o que tinha?
De volta à palavra, era o eco de uma aula insana em uma sala de aula regida por uma troca sem sentido em que o ministro de toga e língua purulenta punha para fora suas vergonhas. Procurando bem, poderia ver seu intestino. Tripas revoltas retorcidas assanhadas pelos latidos dos ouvintes que babavam veneno por seus caninos afiados sedentos por carne nova e macia. Pela sua carne vermelha de sangue do útero. Uma pele consumida por sangue coagulado e leite azedo, mas que se cobria pacientemente para não revelar as cores com que se pintou no amanhecer daquele dia que durou longos meses de alegria incerta e compensadora. Quem veria suas compridas asas verdes e roxas que lhe desciam pelas costas até atingir as coxas? Ou suas mãos amarelas? Seus dentes azuis? Coxas vermelhas de sangue do parto. Menstruação. Tinta que dá cor à nova vida.
Aos poucos, também morria. Aos poucos, suas lágrimas derretiam e seu coração batia e o sangue voltava a correr. E o sangue aquecia suas veias. E seus músculos recuperavam a antiga forma. E sua pele absorvia as tintas da superfície enquanto se cobria de pelos ao som do tambor orgânico que chicoteava suas costelas. E de pelos cresceram cabelos e unhas. E do ventre cresceram vidas – árvores, flores e frutas que povoaram o umbigo do mundo. Mundo que tateava e aos poucos lhe pertencia e também secava com as tintas. Secava também na tela.
Na dúvida, foi para a janela ver as nuvens que se avolumavam. Logo, choveria. Logo, a chuva abriria sulcos profundos na terra fofa do mundo que acabou de criar. Água que brotaria da terra com sabores diversos, mas sempre fria por adivinhar que seu coração aos poucos tornaria a esfriar.
Esfriava.
E chovia.
Molhava.
Mas amanhecia.

Veneno

Escuro e úmido. Um ovo branco no buraco escuro e úmido. Um sibilar suave, leve som quebradiço e foi-se a casca. O ovo se rompeu. Rompeu-se a casca do ovo branco que foi casa da cobra que acabou de nascer. Mal brotou e sua língua já se estica em busca de alimento. Dentro do ovo no buraco escuro e úmido, há a fome. Entranhas contorcidas e dentes pontiagudos. Glândulas venenosas prontas para o uso. Não há devolução.
Também não há devolução da terra usurpada. Tomada com violência do caboclo que foge pelo mato, atrás do qual serpenteia a cobra. Talvez ela não tenha visto o brilho suave do sol que incidiu sobre o velho de cajado que caminhava entre as árvores fazendo rezas – a fome era tanta.
E parecia que naquele vale só havia fome. Fantasmas famintos seguiam seu rastro. Fantasmas de farda não apagavam o fogo da floresta. Calor e fome. O inferno. Fantasmas injetavam veneno no solo. Dormentes à espera da grande cobra anunciada.