Veneno

Escuro e úmido. Um ovo branco no buraco escuro e úmido. Um sibilar suave, leve som quebradiço e foi-se a casca. O ovo se rompeu. Rompeu-se a casca do ovo branco que foi casa da cobra que acabou de nascer. Mal brotou e sua língua já se estica em busca de alimento. Dentro do ovo no buraco escuro e úmido, há a fome. Entranhas contorcidas e dentes pontiagudos. Glândulas venenosas prontas para o uso. Não há devolução.
Também não há devolução da terra usurpada. Tomada com violência do caboclo que foge pelo mato, atrás do qual serpenteia a cobra. Talvez ela não tenha visto o brilho suave do sol que incidiu sobre o velho de cajado que caminhava entre as árvores fazendo rezas – a fome era tanta.
E parecia que naquele vale só havia fome. Fantasmas famintos seguiam seu rastro. Fantasmas de farda não apagavam o fogo da floresta. Calor e fome. O inferno. Fantasmas injetavam veneno no solo. Dormentes à espera da grande cobra anunciada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s