Sobre Araucárias e Esperanças

Escura e fria era a floresta de araucárias com sua imensidão de tons de verde e preto. Lá, onde pipocavam sementes marrons, avermelhadas e amarelas pelo chão. Pinhões caídos. Pinhas partidas e os pés do caboclo revirando a terra em busca de alimento para sua família que emagrece. Para a criança que se recupera de uma doença com chá de vassourinha. Para a mulher que cozinha no fogão à lenha enquanto espera a hora de partir. Jamais conheceriam o tardar da hora, pois para aquelas gentes sempre foi tarde demais. Sempre, desde que decidiram romper os grilhões que os prendiam e libertar o grito que os sufocava, impedindo seu acesso à terra, à vida, à dignidade e à esperança.

Eram gente diversa. Branca, parda, negra. Gente colorida como a floresta. Filhos de uma floresta que os forçou à adaptação para permitir que continuassem em seu útero, gestados, protegidos e alimentados antes de serem violados como a floresta. Nela, entrou o trem carregado de dinheiro para levar embora sua alma. Na carne da floresta, entraram máquinas para derrubar a imponência e a exuberância. Nua a floresta não existe. Nem eles existiam sem a floresta. Suas vidas foram derrubadas com as madeiras de lei, cuja única lei que conheciam era a do seguir infinito dos dias em seu ciclo natural de vida, morte e vida. Na carne deles, plantaram-se as balas.

E hoje, carnes e peles se cobrem de pinnus. Alienígena. Alheio. Incompreensivelmente sem história e em luta – vencendo a luta pela terra.

Ainda lutam as araucárias, a floresta e os caboclos. E eu que ainda cheiro à poeira do caminho. E nós, que ainda vemos seus rastros no caminho da (Boa) Esperança.

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