Big bang

Um ponto de luz. Branco, escuro, úmido e profundo, mas plano. Outro plano em que se desenrolavam as cenas das batalhas homéricas travadas em minha mente e que nunca saíram das nuvens. Nuvens que, aliás, cobrem o azul do céu com seus tons de cinza nada excitantes. Excitante inverno sob o edredom vermelho ou sob a geada fria que insistia em se formar quando ainda nem era madrugada. E no meio da noite, o ponto de luz brilhava no céu.

Seria a fogueira no chão que o iluminava? Ou seria a luz dos seus olhos que faiscavam com as estrelas? Ou uma ilusão causada pelo vinho? Ilusão alguma! Era a terra que tremia sob seus pés e seus próprios passos trêmulos perante a descoberta do que estava diante dos seus olhos e não queria ver. Esculpida na terra, era ela. Nascida do barro, curvada pela chuva e crivada de balas. De carvão se fizeram seus cabelos pretos e do formalismo sua pele se pintou de branco. Mas havia esperança. Uma serra inteirinha delas.

Entre serras e esperanças, o ponto de luz. Lá para onde levam os caminhos de terra. Lá onde dormem os sonhos e despertam com a suavidade de um beijo breve, doce e quente. Um beijo para libertar a tensão sobre o ponto. Um olhar e um beijo. Um passo e um dobrar de joelhos. Um olho d’água e a fé e foi-se o ponto. Acabou a tensão e o universo se expandiu quando a luz derramou seu pranto sobre a floresta que ainda arde na pele e na memória. Luz verde de mil tons. Estátua de terra que ganhou vida e se vestiu de branco para dar as mãos ao desconhecido que caminha em passos lentos.

– Segue – diz a luz do velho de cajado na mão. Sigo, dizem meus passos que voltaram à lentidão da falta de tempo. Caminho sem relógios enquanto a terra treme. Não houve tempo para eles.

Para mim, há tempo. Há pinhão, fogo e caminho livre. Portas abertas e abraços quentes. Beijos breves de lábios que não se tocam e tensões que se libertam de suas amarras. Há vida onde a vida existe.

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