Sonhos e pinhões

Era verde no sonho. Árvores tão altas que a impediam de ver o sol. Verde paisagem que modificava tudo aquilo que de repente já não era mais certo e esvanecia pelo ar. De concreto haviam apenas árvores de sonho e o som do cajado que batia firme contra a terra fazendo tremer os pássaros e folhas em profundo respeito e devoção. Havia uma oração esquecida que saia sem palavras de seu peito e por seus lábios entre abertos aguardando algo que os tocasse.

Seus lábios foram tocados pelo calor do café, pelo sabor intenso do vinho, pela água santa que brotou do chão e pelo roçar da sua respiração. Quase pode sentir a maciez dos outros lábios rosados. Quase pode sentir o gosto, mas ao contrário de Eva teve medo de morder a maçã. Teve medo de libertar a cobra que consome seu coração, fazendo-o sangrar em batimentos crus todos os dias, e com ela livrar o grito da garganta num orgasmo novo e certo e intrigante por fugir dos padrões. Um grito único fruto do prazer de se entregar a uma descoberta de si mesma enquanto aquelas mãos percorressem seu corpo e descobrissem todos os seus orifícios. Lábios colados, língua nos seus seios, respiração no seu umbigo e estaria perdida em um vasto universo tão verde quanto a floresta de araucárias que visitou nos sonhos.

Mas sem cajado, seriam apenas frutos. Pinhas recheadas de pinhões verdes e maduros que cozinhariam na mesma brasa que arde no chão para esquentar as peles no inverno mesmo que seu interior não precise mais de calor sob o risco de explodir. Dois corpos que eram um universo inteiro comprimido em seu movimento de expansão e que orbitavam um ao outro por pura atração. Universo que implodiu antes que pudessem controlar. Implosão que consumiu a si mesma para que a ordem natural do universo fosse mantida. Ordem que não pode mudar, mas que muda e quando muda abre novos mundos através de buracos negros profundos e de difícil compreensão.

Tudo continua igual. A ordem está mantida e todos foram salvos.

Mas na floresta ainda há pinhão pelo chão.

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Dois e(m) um

A xícara estava vazia. Isso não significa que não houvesse café para enche-la, pelo contrário, poderia transbordá-la e deixar o café escorrer pela pia e pelo chão. Mas não era a bebida que deveria escorrer e se enfiar nas prateleiras e se espalhar pelo chão e encher o ar com seu aroma tão característico – era ela. Eram seu quadril que deveria se apoiar na pia antes de seus joelhos se dobrarem para encontrar o chão frio enquanto os corpos quentes rolavam derrubando xícaras sem se importar. Eram as suas mãos que deveriam percorrer aqueles cabelos e aquelas curvas que lhe sempre inspiraram seus mais íntimos desejos. Era ela na sua consciência pesada de quem teve medo que um ou dois ou três ou muitos cacos de vidro sujos de café e açúcar se enfiassem em sua pele. Era ela e sua consciência pesada pelo fôlego longo no lugar do curto respirar antes de tomar aqueles lábios e sugá-los até que perdessem o tom rosado para assumir o vermelho.

Uma paixão em vermelho que não passou de um papel em branco. Mil palavras, formas, tons, cores, lágrimas e dias e dias e dias vividos com a lembrança de fatos tão tímidos. E agora? Duas mãos tão próximas que não ousam se tocar. Dois caminhos paralelos pelo bem de seus próprios corações fechados a cadeado e cuja chave continua colocada cuidadosamente na gaveta de calcinhas. Dois destinos que se unirão novamente logo depois da curva do rio para se separar mais uma vez logo adiante e se encontrar logo em frente e se separar de novo. Dois pulsos que aceleram para encontrar o sentido da vida e que talvez se encontrem numa nova existência. Dois amores em vermelho, pintados à tinta, escritos à caneta e úmidos pela água santa que brota do chão.

Dois.

E uma vontade intensa de mais uma xícara de café.