Varinha mágica

Estava imóvel enquanto o mundo girava. Não podia saber se ele ia para a direita ou para a esquerda. Ou talvez estivesse no ponto de equilíbrio e fosse ela que girava enquanto seus pensamentos vagavam perdidos atraídos para um único ponto em branco e preto e vermelho. Minúsculo ponto onde queria entrar e se esconder. Forçar a entrada e ficar lá, apartada do mundo até que tudo voltasse ao normal. Não ao que foi antes, mas ao universo em que expressar sentimentos fosse aceitável e não uma amostra de fraqueza, em que o romance existisse para além da moda. Não era moda que ela vestia. Não tinha nem roupas sobre sua pele. Nua, mais uma vez. Nua perante suas cicatrizes, diante de suas marcas invisíveis, aquelas que ninguém fez e que doíam mais do que qualquer outra curada ou não.

O ponto existia, mas ela jamais forçaria entrar nele. Abominava as forças brutas e se lançava a elas apenas quando já não podia mais digerir a si mesma e precisava de algo externo para consumi-la com força e dor. Dor física que a impedisse de sentar por um dia. Dor que talvez fizesse seu ventre inchar com um coágulo de sangue que se transformaria em vida. Uma vida de espera, de coisas escondidas e não reveladas para evitar o choque. Não percebia que o choque a manteria viva. Esqueceu-se de como foi bom erguer a cabeça e olhar no fundo daqueles olhos claros e se ver refletida como alguém livre, como quem sempre quis ser. Não era importante, não era necessária – era querida. Num lampejo, estava em casa numa casa que não era sua. Livre na teia da aranha que nunca a comeu, mas que poderia fazê-lo com facilidade se quisesse. Bastava um novo toque. Aquele que se arrependeu no meio do caminho. Aquele que voltou atrás quando deitaram-se na cama. Aquele que não fez encontrar seus rostos enquanto o filme rolava e as pessoas cantavam e o dia escurecia e tudo parecia maravilhosamente mágico.

A verdade existe como a flor que nasceu no asfalto, como a araucária que resiste ao pinnus.

E um dia acordou e já era dia. Não era alvorada em que as cores não se veem corretamente. Era dia claro e pleno. Era sua chance de gritar. Amava. Amava e precisava. Amava e tinha saudades. Amava e ainda lembrava todos os detalhes… do toque suave… do cheiro… das reticências… Lembrava dos tons acolhedores de marrom dos primeiros encontros. Dos brancos dos últimos e dos azuis tão fortes do processo todo. Estavam voltando ao azul – ela estava. E agora havia nova possibilidade atormentando sua cabeça desenfreada.

Teria coragem dessa vez? Libertaria suas próprias algemas, cortando as cordas que a prenderam com uma ameaça de morte e de despejo? Talvez nunca tivesse. Não era a única em guerra contra o caos que a consumia e de repente já não queria mais a paz. Não queria os céus, preferia o inferno ardente lambendo suas coxas e toda sua pele. Preferia a dor da queda no abismo ao flutuar com suas asas. Uma vez tinha asas, não mais. Depenada. Descabelada. Vadia mágica.