Irani

Nas curvas do mapa nasceu a textura da sua pele cuja frieza me faz arrepiar e aquecer. Logo eu que sempre fui fria como a cobra que se alimenta de minhas entranhas sem parar por um instante sequer. Tem sede de sangue tal como minha boca de lábios secos. Lábios molhados pelo sangue do outro. Sangue de menstruação. Sangue que pingou do aborto feito pelo fio do machado, pelo assentar dos trilhos, pelo verde do dinheiro estrangeiro. O que não é estrangeiro nesse mapa? De onde vem essas curvas que desenham a silhueta que gruda nas minhas retinas e me impede de enxergar mais longe do que os teus olhos querem ver.

Sem ver, me perco. Tropeço e caio. Mas levanto e continuo com a pele machucada depois de rolar para baixo do morro, incapaz de parar, incapaz de me proteger na vã tentativa de não se ferir. Já não existe alternativa para quem nasceu onde eu nasci. De onde viemos, não há lugar para estancar o sangue  ̶  o que há é luta e resistência. Resistimos às subidas e descidas. Resistimos às balas que já não furam mais os nossos órgãos e que quando furam se alojam porque não há quem as retire. Não há saída senão cobrir a bala e o sangue com a bandeira branca. Manchar de vermelho o tecido como mancharam-se de vermelho os meus lençois e meus lábios.

Mas era batom.

Era falso como a cor dos meus cabelos e o tom áspero da minha voz. Verdadeiras foram as lágrimas que não caíram ao pé da roseira, foi a admiração que transborda as xícaras de café e as linhas e as entrelinhas de qualquer expressão. Verdadeiro foi o brilho do olhar que iluminou o dia e a semana e o mês e o ano todo. Iluminou a noite quando os casebres já não ardem em fogo vivo e quem está em chamas somos nós. Duas mãos que se tocaram frias em busca do calor da pele. Iluminou a noite chuvosa e a noite fria que escureceu. Porque de alguma forma deveria também escurecer para que os sentidos descansem e os líquidos decantem.

Descansaram minhas feridas sempre abertas e as raízes dos meus cabelos que perdem a cor fingida. Descansou o batom, a maquiagem, o salto e a literatura. Ler talvez seja um luxo. Escrever, um lixo. Poetar, uma utopia. A luta segue em descanso.

Talvez, sem saber, ainda seja madrugada e estejamos cercados em Irani.

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