Boas esperanças

Paraíso entre as montanhas. Por todo lado existem morros altos e floresta criados como obra divina para proteger quem precisa de proteção. E protegeu enquanto não cercou.
Impossível saber como era. Mas as palavras do Monge me sussurram encostas repletas de casas e um caminho em procissão até o cemitério para velar mais uma criança que teve a alegria de não morrer matado. Com a graça de morrer sem ser queimado no caminho da esperança, a criança (muitas delas) receberam caixões decorados com madeira talhada.
E a última morada alimentou a alma. Alma que sentiu fome e medo com o cerco das fardas republicanas. Alma que sentiu o calor do fogo que queimou seus irmãos e irmãs. Fogo a fogo, a morada se desfaz. Túmulos queimam. Túmulos respiram. Vozes ecoam.

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Tintas secas

Era noite, mas também era dia. No coração, um crepúsculo apaixonado pela aurora que pinta os dias e as manhãs tão quentes do verão que já se foi. Faz tempo que é dia, embora algumas vezes o sol se põe. Aquela era uma das velhas noites frias em que o café esfriava na xícara e o cigarro se consumia sozinho no cinzeiro. O gelo transbordou da forma na geladeira como as lágrimas que pularam de seus olhos para congelar o coração que já não colore, pois as tintas secaram. Endurecidas como suas mãos que desde muito não tocavam papel ou caneta sem entender o porquê, até quando ou a que preço.
Sabia o preço. Ele era sua própria dor. A dor que consumia seu peito imóvel, anestesiado pela claridade excessiva dos dias. Feliz demais, por tantas vezes chorou de tristeza. E agora já estava seca. Secaram-lhe as lágrimas e continuou o gozo. Gozo de um prazer que já não tinha. E o que tinha?
De volta à palavra, era o eco de uma aula insana em uma sala de aula regida por uma troca sem sentido em que o ministro de toga e língua purulenta punha para fora suas vergonhas. Procurando bem, poderia ver seu intestino. Tripas revoltas retorcidas assanhadas pelos latidos dos ouvintes que babavam veneno por seus caninos afiados sedentos por carne nova e macia. Pela sua carne vermelha de sangue do útero. Uma pele consumida por sangue coagulado e leite azedo, mas que se cobria pacientemente para não revelar as cores com que se pintou no amanhecer daquele dia que durou longos meses de alegria incerta e compensadora. Quem veria suas compridas asas verdes e roxas que lhe desciam pelas costas até atingir as coxas? Ou suas mãos amarelas? Seus dentes azuis? Coxas vermelhas de sangue do parto. Menstruação. Tinta que dá cor à nova vida.
Aos poucos, também morria. Aos poucos, suas lágrimas derretiam e seu coração batia e o sangue voltava a correr. E o sangue aquecia suas veias. E seus músculos recuperavam a antiga forma. E sua pele absorvia as tintas da superfície enquanto se cobria de pelos ao som do tambor orgânico que chicoteava suas costelas. E de pelos cresceram cabelos e unhas. E do ventre cresceram vidas – árvores, flores e frutas que povoaram o umbigo do mundo. Mundo que tateava e aos poucos lhe pertencia e também secava com as tintas. Secava também na tela.
Na dúvida, foi para a janela ver as nuvens que se avolumavam. Logo, choveria. Logo, a chuva abriria sulcos profundos na terra fofa do mundo que acabou de criar. Água que brotaria da terra com sabores diversos, mas sempre fria por adivinhar que seu coração aos poucos tornaria a esfriar.
Esfriava.
E chovia.
Molhava.
Mas amanhecia.

Veneno

Escuro e úmido. Um ovo branco no buraco escuro e úmido. Um sibilar suave, leve som quebradiço e foi-se a casca. O ovo se rompeu. Rompeu-se a casca do ovo branco que foi casa da cobra que acabou de nascer. Mal brotou e sua língua já se estica em busca de alimento. Dentro do ovo no buraco escuro e úmido, há a fome. Entranhas contorcidas e dentes pontiagudos. Glândulas venenosas prontas para o uso. Não há devolução.
Também não há devolução da terra usurpada. Tomada com violência do caboclo que foge pelo mato, atrás do qual serpenteia a cobra. Talvez ela não tenha visto o brilho suave do sol que incidiu sobre o velho de cajado que caminhava entre as árvores fazendo rezas – a fome era tanta.
E parecia que naquele vale só havia fome. Fantasmas famintos seguiam seu rastro. Fantasmas de farda não apagavam o fogo da floresta. Calor e fome. O inferno. Fantasmas injetavam veneno no solo. Dormentes à espera da grande cobra anunciada.

Ecos do Contestado

No caminho, ficou um rastro de sangue.

Não era meu sangue coagulado saindo pelo útero aberto

E nem o sangue do hímen rompido

Era sangue de morte,

De gente morrida,

De gente matada.

Era gente sofrida e espoliada.

Era quem não era gente – não mais.

Serviu antes e agora incomoda.

Pega em arma,

Prepara pra luta

E luta

E mata

E morre

E quem não morre vive.

Mas nem vivo existe.

Mas vivo ou morto resiste.

Vivo e morto assiste

Olhos em lágrimas

O sangue caído

O rosto doído

De quem vê no caminho

As marcas no chão

Não são passos

Não são rastros

São marcas do progresso

Do silêncio

Do eco

Respiração

O peito infla no Contestado

O pulmão agradece o ar puro

A barriga agradece a fartura

Os pés se cansam de andar

Caminho, poeira e rastro

Passo e sangue

Sangro e passo.

Poesia perdida

É quando o mundo silencia que minha alma desperta. Vaga por entre as curvas das montanhas que cercam esse território cuja conceituação me foge e já não me interessa. Também não interessam as nuvens de chuva que se condensam enegrecendo o céu com a possibilidade de me fazer precisar acender a luz mais cedo. No chão, onde a pouca luminosidade alcança, há um buraco de vida que vive para se afogar na enxurrada que não tarda a começar.

Nas primeiras gotas, já não ouço mais o barulho ensurdecedor dos trovões que fazem tremer as paredes. Divago com os pés sem encostar o chão em busca da poesia. Coloco meus óculos, pois já não procuro a poesia inteira – parte dela está em mim e apenas uma linha se perdeu. Aonde?

Teria escapado pelo furo do fundo da minha bolsa? Ou caído no chão sem que eu notasse enquanto tentava alcançar o batom? Ou escorregou pelas bordas do meu corpo quando me deitei sobre os lençóis para mancha-los com o sangue de um útero que não fecha e não cessa de pingar. Ficaram, as minhas palavras, grudadas num amontoado de placenta no meu rastro? Ou voavam com o canto dos passarinhos que se despedem do verão nesse março que mal começou? Ou fizeram girar a Terra em seu eixo pra que eu me finalmente me perdesse de mim na rotação?

Mas encontro um ponto. E o ponto desaparece tão súbito quanto surgiu. E onde ele estava já não há mais risco preto sobre folha branca. Há branco puríssimo que reflete a luz do raio da tormenta que açoita as janelas. Há branco e por isso há nada. E ao mesmo tempo tudo. Há um indefinido, um vestígio mudo que me empurra na busca das palavras que o complementam.  Há a chuva que ameniza gradualmente para desaparecer na manhã seguinte. Há a vida afogada no buraco do chão. Há poesia perdida na pele.

Coração Contestado

Era lá e era também aqui. Lá na terra que era coberta de mato e virou roça e depois descampado pisoteado por trabalhadores que fixavam trilho e sangue. Lá onde o trilho se espalha como veias e o sangue escorre para dentro da terra que me compôs. Eu que sou terra que hoje volta a se cobrir de mato e se enrola em meus pés parecendo querer frear meu avanço, ignorando que preciso seguir no caminho pedregoso que margeia os trilhos para chegar ao local apontado pelo Santo.

E era pra lá que eu devia ir para conseguir chegar aqui. Aqui dentro onde meu coração se comprime ao perceber a linha reta da ferrovia que já não funciona, mas denuncia a distância. Muitas distâncias que se debruçam sobre as bordas dos muros erguidos ano após ano, pois não podem caber em simplificações. Porque elas escorrem como o sangue que já não cabia sobre a terra e precisou se enterrar e se levantam como o fogo que já não cabia sobre os corpos e precisou invadir as casas e se avolumam como a avareza que precisa consumir tanto quanto for imaginável existir no mundo. Nesse mundo que é tão difícil de compreender enquanto gira e que não para nunca de girar.

Gira também meu corpo em torno do seu próprio eixo enquanto passo sobre os trilhos. Há música em meus ouvidos e tropeços em meus passos. Caio sobre as pedras para manchar minha pele com o roxo da pancada do meu peso contra o ferro que me margeia. Eu que não passo de um monte de carne crispada sobre as tábuas que resistem à ação do tempo e do esquecimento. Eu que sou um saco de pele que cobre ossos sem mágoas do mundo. Eu que continuo com o sangue cuidadosamente abrigado na parte de dentro e não precisei vê-lo fugir de mim para dar vida e aquecer as veias dos trilhos enquanto a vida morria nas margens da ferrovia. Eu, que vejo o mundo de baixo, entre o rio e a rua, me levanto e sigo.

Sigo o sangue e as veias. Caminhos que levam ao coração.