A forma da terra

O riso da terra nas suas pernas atestada a pouca destreza ao caminhar por ela. Invadia a terra que não era mais virgem, mas que não deu permissão para passar. E porque não permitiu, derrubou. E ela caiu e levantou, ao contrário das árvores que não se podem erguer outra vez. Caiu como caiam as gotas de suor do seu rosto diante do esforço da caminhada naquela terra que tingia o tecido que a cobria.

Era a mesma terra que tremeu quando se deitou sobre a grama naquele início de tarde em que o frio fez sua pele arder ou quando nem mesmo suava ao avançar metros e metros de caminho rumo à última morada dos outros – eles, cujos rostos não conhecia, mas que jaziam silenciosos na terra de onde brotavam rosas vermelhas. Flores mais sedosas que sua pele jovem, envelhecida pelos dias e pelo cansaço, mas ainda jovem como a idade permitia. Abaixo das flores, havia a terra e poeira.

A nuvem se ergueu quando desabou. Caiu com menos graça do que caem as bailarinas, mas com um riso frouxo percorrendo seus lábios úmidos. Esses lábios que há pouco foram invadidos por água, ainda tinham sede. Sede do que é concreto. Sede de terra. Sede dos outros lábios que colaram nos dela enquanto outro corpo caia por cima do seu, fazendo erguer a poeira do caminho há muito esquecido. Um beijo e eram terra que rolava sobre si mesma para fazer emergir o amor das profundezas. Um beijo e eram terra e mãos que se cruzavam para descobrir os caminhos dos dois corpos que se fundiam à poeira ou ao chão. Um beijo e eram terra que clamava por chuva que entrasse em seus poros para descobrir seus segredos e fragilidades. Um beijo e eram frágeis fragmentos de terra que tomavam forma das amantes quando as roupas já não haviam e o barro que se formava com as gotas de chuva que começava a cair pouco a pouco tomava forma de gente.

A terra ria enquanto as mãos se mostravam habilidosas oleiras para dar forma ao barro que avançava sobre as peles sem que fosse notado. Ria ao ver brotarem rios das pernas que se abriam. Ria sem esquecer que já verteu sangue. Ria por ter suas entranhas descobertas pelo frenético movimento dos dois corpos inconfundíveis e irreconhecíveis imersos na terra que lhes deu morada. Ria por gratidão, porque subitamente estava viva e tomava forma. Forma de amores. Forma de quem dá vida às rosas. Forma de resistência.

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400 mãos

Era dura a casca. Fino o fio do machado. Vermelho o cerne da araucária que caia. Verde o dólar que se colhia.

Na mata, um rastro destruidor mata. Morriam as imponentes árvores seculares e a frágil vegetação rasteira. No ar puro um rastro de fumaça. Nas vilas, leitos de sangue.

Um rubor profundo que marca um território reescrito, cujas entrelinhas inchadas pelas palavras inférteis sofrem silenciosos abortos. Abortam-se sonhos – por que gente não sobrou.

Onde está a gente?

Gente degolada havia na curva. Gente pobre. Famintos, iletrados, bestializados como fanáticos por forças superiores que conheciam muito bem – palavras. Palavras cortadas com uma simbólica resistência.

Gente sofrida havia no caminho. Pedras no meio do caminho. Pedras que suportaram o peso de enriquecer os outros em troca da vida e do pão. Padras que viram o inimaginável sem rolar, sem sair dos trilhos para não encontrar as 400 mãos prontas para fazer jorrar seu sangue pobre. Pedras imobilizadas pela palavra, cimentadas à bala.

Gente abortada pela pátria há por todos os lados. Marginais habitando as terras onde o dólar não brotou. Lá! Lá onde se consegue olhar para traz sem medo de quebrar novamente o pescoço. Onde a memória ancestral do silêncio é reescrita ao som das artes.

Gente que faz arte e arte que sempre foi resistência. Flautas, cordas, canetas ou pinceis vem de gente e falam com gente. Falam sobre gente para deixar de lado as instituições. Falam sobre gente nas instituições. Fazem ciência e não apenas falam.

A resistência está presente. Mas o presente ainda é incerto.

Onde está a gente?

 

Notas para Adeodato

Cordas cortadas e um instrumento aos prantos

Violado

Violência  (contra quem?)

Queima ao lado da cruz

Crivada de balas para matar o santo

Cartuchos de armas que a terra ainda produz

 

Descansa a faca cheia de silêncio

Cala-se o sangue

Sangram as vidas

Mudas

Grita a violência

Adeodato Manoel Ramos

Flagelo de Deus

Fascínora, desalmado

Trovador, cantor

Resiste no silêncio

Morreu com um único som

Mas a terra de lá já não produz cartuchos

Irani

Nas curvas do mapa nasceu a textura da sua pele cuja frieza me faz arrepiar e aquecer. Logo eu que sempre fui fria como a cobra que se alimenta de minhas entranhas sem parar por um instante sequer. Tem sede de sangue tal como minha boca de lábios secos. Lábios molhados pelo sangue do outro. Sangue de menstruação. Sangue que pingou do aborto feito pelo fio do machado, pelo assentar dos trilhos, pelo verde do dinheiro estrangeiro. O que não é estrangeiro nesse mapa? De onde vem essas curvas que desenham a silhueta que gruda nas minhas retinas e me impede de enxergar mais longe do que os teus olhos querem ver.

Sem ver, me perco. Tropeço e caio. Mas levanto e continuo com a pele machucada depois de rolar para baixo do morro, incapaz de parar, incapaz de me proteger na vã tentativa de não se ferir. Já não existe alternativa para quem nasceu onde eu nasci. De onde viemos, não há lugar para estancar o sangue  ̶  o que há é luta e resistência. Resistimos às subidas e descidas. Resistimos às balas que já não furam mais os nossos órgãos e que quando furam se alojam porque não há quem as retire. Não há saída senão cobrir a bala e o sangue com a bandeira branca. Manchar de vermelho o tecido como mancharam-se de vermelho os meus lençois e meus lábios.

Mas era batom.

Era falso como a cor dos meus cabelos e o tom áspero da minha voz. Verdadeiras foram as lágrimas que não caíram ao pé da roseira, foi a admiração que transborda as xícaras de café e as linhas e as entrelinhas de qualquer expressão. Verdadeiro foi o brilho do olhar que iluminou o dia e a semana e o mês e o ano todo. Iluminou a noite quando os casebres já não ardem em fogo vivo e quem está em chamas somos nós. Duas mãos que se tocaram frias em busca do calor da pele. Iluminou a noite chuvosa e a noite fria que escureceu. Porque de alguma forma deveria também escurecer para que os sentidos descansem e os líquidos decantem.

Descansaram minhas feridas sempre abertas e as raízes dos meus cabelos que perdem a cor fingida. Descansou o batom, a maquiagem, o salto e a literatura. Ler talvez seja um luxo. Escrever, um lixo. Poetar, uma utopia. A luta segue em descanso.

Talvez, sem saber, ainda seja madrugada e estejamos cercados em Irani.

Varinha mágica

Estava imóvel enquanto o mundo girava. Não podia saber se ele ia para a direita ou para a esquerda. Ou talvez estivesse no ponto de equilíbrio e fosse ela que girava enquanto seus pensamentos vagavam perdidos atraídos para um único ponto em branco e preto e vermelho. Minúsculo ponto onde queria entrar e se esconder. Forçar a entrada e ficar lá, apartada do mundo até que tudo voltasse ao normal. Não ao que foi antes, mas ao universo em que expressar sentimentos fosse aceitável e não uma amostra de fraqueza, em que o romance existisse para além da moda. Não era moda que ela vestia. Não tinha nem roupas sobre sua pele. Nua, mais uma vez. Nua perante suas cicatrizes, diante de suas marcas invisíveis, aquelas que ninguém fez e que doíam mais do que qualquer outra curada ou não.

O ponto existia, mas ela jamais forçaria entrar nele. Abominava as forças brutas e se lançava a elas apenas quando já não podia mais digerir a si mesma e precisava de algo externo para consumi-la com força e dor. Dor física que a impedisse de sentar por um dia. Dor que talvez fizesse seu ventre inchar com um coágulo de sangue que se transformaria em vida. Uma vida de espera, de coisas escondidas e não reveladas para evitar o choque. Não percebia que o choque a manteria viva. Esqueceu-se de como foi bom erguer a cabeça e olhar no fundo daqueles olhos claros e se ver refletida como alguém livre, como quem sempre quis ser. Não era importante, não era necessária – era querida. Num lampejo, estava em casa numa casa que não era sua. Livre na teia da aranha que nunca a comeu, mas que poderia fazê-lo com facilidade se quisesse. Bastava um novo toque. Aquele que se arrependeu no meio do caminho. Aquele que voltou atrás quando deitaram-se na cama. Aquele que não fez encontrar seus rostos enquanto o filme rolava e as pessoas cantavam e o dia escurecia e tudo parecia maravilhosamente mágico.

A verdade existe como a flor que nasceu no asfalto, como a araucária que resiste ao pinnus.

E um dia acordou e já era dia. Não era alvorada em que as cores não se veem corretamente. Era dia claro e pleno. Era sua chance de gritar. Amava. Amava e precisava. Amava e tinha saudades. Amava e ainda lembrava todos os detalhes… do toque suave… do cheiro… das reticências… Lembrava dos tons acolhedores de marrom dos primeiros encontros. Dos brancos dos últimos e dos azuis tão fortes do processo todo. Estavam voltando ao azul – ela estava. E agora havia nova possibilidade atormentando sua cabeça desenfreada.

Teria coragem dessa vez? Libertaria suas próprias algemas, cortando as cordas que a prenderam com uma ameaça de morte e de despejo? Talvez nunca tivesse. Não era a única em guerra contra o caos que a consumia e de repente já não queria mais a paz. Não queria os céus, preferia o inferno ardente lambendo suas coxas e toda sua pele. Preferia a dor da queda no abismo ao flutuar com suas asas. Uma vez tinha asas, não mais. Depenada. Descabelada. Vadia mágica.

Sonhos e pinhões

Era verde no sonho. Árvores tão altas que a impediam de ver o sol. Verde paisagem que modificava tudo aquilo que de repente já não era mais certo e esvanecia pelo ar. De concreto haviam apenas árvores de sonho e o som do cajado que batia firme contra a terra fazendo tremer os pássaros e folhas em profundo respeito e devoção. Havia uma oração esquecida que saia sem palavras de seu peito e por seus lábios entre abertos aguardando algo que os tocasse.

Seus lábios foram tocados pelo calor do café, pelo sabor intenso do vinho, pela água santa que brotou do chão e pelo roçar da sua respiração. Quase pode sentir a maciez dos outros lábios rosados. Quase pode sentir o gosto, mas ao contrário de Eva teve medo de morder a maçã. Teve medo de libertar a cobra que consome seu coração, fazendo-o sangrar em batimentos crus todos os dias, e com ela livrar o grito da garganta num orgasmo novo e certo e intrigante por fugir dos padrões. Um grito único fruto do prazer de se entregar a uma descoberta de si mesma enquanto aquelas mãos percorressem seu corpo e descobrissem todos os seus orifícios. Lábios colados, língua nos seus seios, respiração no seu umbigo e estaria perdida em um vasto universo tão verde quanto a floresta de araucárias que visitou nos sonhos.

Mas sem cajado, seriam apenas frutos. Pinhas recheadas de pinhões verdes e maduros que cozinhariam na mesma brasa que arde no chão para esquentar as peles no inverno mesmo que seu interior não precise mais de calor sob o risco de explodir. Dois corpos que eram um universo inteiro comprimido em seu movimento de expansão e que orbitavam um ao outro por pura atração. Universo que implodiu antes que pudessem controlar. Implosão que consumiu a si mesma para que a ordem natural do universo fosse mantida. Ordem que não pode mudar, mas que muda e quando muda abre novos mundos através de buracos negros profundos e de difícil compreensão.

Tudo continua igual. A ordem está mantida e todos foram salvos.

Mas na floresta ainda há pinhão pelo chão.

Dois e(m) um

A xícara estava vazia. Isso não significa que não houvesse café para enche-la, pelo contrário, poderia transbordá-la e deixar o café escorrer pela pia e pelo chão. Mas não era a bebida que deveria escorrer e se enfiar nas prateleiras e se espalhar pelo chão e encher o ar com seu aroma tão característico – era ela. Eram seu quadril que deveria se apoiar na pia antes de seus joelhos se dobrarem para encontrar o chão frio enquanto os corpos quentes rolavam derrubando xícaras sem se importar. Eram as suas mãos que deveriam percorrer aqueles cabelos e aquelas curvas que lhe sempre inspiraram seus mais íntimos desejos. Era ela na sua consciência pesada de quem teve medo que um ou dois ou três ou muitos cacos de vidro sujos de café e açúcar se enfiassem em sua pele. Era ela e sua consciência pesada pelo fôlego longo no lugar do curto respirar antes de tomar aqueles lábios e sugá-los até que perdessem o tom rosado para assumir o vermelho.

Uma paixão em vermelho que não passou de um papel em branco. Mil palavras, formas, tons, cores, lágrimas e dias e dias e dias vividos com a lembrança de fatos tão tímidos. E agora? Duas mãos tão próximas que não ousam se tocar. Dois caminhos paralelos pelo bem de seus próprios corações fechados a cadeado e cuja chave continua colocada cuidadosamente na gaveta de calcinhas. Dois destinos que se unirão novamente logo depois da curva do rio para se separar mais uma vez logo adiante e se encontrar logo em frente e se separar de novo. Dois pulsos que aceleram para encontrar o sentido da vida e que talvez se encontrem numa nova existência. Dois amores em vermelho, pintados à tinta, escritos à caneta e úmidos pela água santa que brota do chão.

Dois.

E uma vontade intensa de mais uma xícara de café.